Observatório de Conflitos
Acompanhamento sistemático de conflitos armados e crises geopolíticas em andamento globalmente, pelo NPSeD/UFSC.
monitorados
UCDP · COW
atualização
Irã, Estados Unidos e Israel
Última atualização ago/2026
As negociações entre os Estados Unidos e o Irã para encerrar o conflito estagnaram, com o governo Trump afirmando recentemente que não há novas conversas planejadas após a rejeição dos termos iranianos em maio de 2026. A guerra, que atinge hoje o 39º dia da sua “Fase II”, é caracterizada por uma estratégia iraniana de atrito econômico e o uso massivo de enxames de drones de baixo custo para exaurir os caros sistemas de defesa ocidentais.
Em uma escalada diplomática e econômica, os Emirados Árabes Unidos impuseram um embargo comercial e financeiro total e por tempo indeterminado ao Irã, após relatarem novos ataques de mísseis contra seu território e águas territoriais. A tensão regional foi agravada pelas ameaças do presidente Trump de bombardear Omã, devido à insatisfação de Washington com os acordos de segurança e cooperação firmados entre o sultanato e o regime de Teerã.
No campo tático, o tráfego pelo Estreito de Ormuz permanece severamente reduzido ou bloqueado, com o Irã utilizando minas navais e embarcações rápidas de ataque para manter o controle sobre o fluxo global de energia. Paralelamente, os EUA intensificaram a pressão jurídica ao indiciar 17 iranianos por uma campanha massiva de roubo cibernético realizada em nome do governo iraniano. Enquanto isso, a situação humanitária se deteriora em teatros secundários, como o sul do Líbano, onde a campanha terrestre israelense contra o Hezbollah já gerou níveis recordes de deslocamento civil.
Histórico
O conflito entre Irã, Estados Unidos e Israel ocorre no contexto das disputas políticas, militares e econômicas do Oriente Médio, envolvendo divergências sobre segurança regional, influência geopolítica e controle estratégico de recursos energéticos. Enquanto Estados Unidos e Israel buscam conter a expansão da influência iraniana, limitar seu programa nuclear e preservar alianças regionais, o Irã procura consolidar sua posição como potência regional e reduzir a presença ocidental na região. A recente escalada das tensões tem produzido impactos que ultrapassam o plano militar, afetando diversos mercados por meio da instabilidade no Estreito de Ormuz, além de agravar crises humanitárias em países como Irã, Líbano, Gaza, Síria e Iêmen. Paralelamente, atuais negociações tentam estabelecer cessar-fogos e acordos sobre o programa nuclear iraniano, embora os avanços diplomáticos permaneçam limitados diante da continuidade das hostilidades e das divergências estratégicas entre os atores envolvidos.
A relação histórica dos Estados Unidos no Irã pode ser resumida em três momentos: interesse secundário, aproximação e influência estadunidense, e afastamento e rivalidade. Inicialmente restrita a questões comerciais menores (Hussain, 2015), a atuação norte-americana se aprofundou com a descoberta de petróleo e culminou no golpe de Estado de 1953, que depôs o premiê Mosaddegh e garantiu poder absoluto ao xá Reza Pahlevi, transformando o país em um forte aliado ocidental (O’Donnell, 2009; Bahgat, 2023). Contudo, a violenta repressão desse regime autocrático gerou um profundo sentimento antiamericano (Coggiola, 2008), o que desaguou na Revolução Islâmica de 1979 e na instituição da república teocrática do aiatolá Khomeini. Esse movimento marcou a ruptura estrutural das relações, que evoluiu para uma inimizade definitiva após a crise dos reféns e o rompimento diplomático formal em 1980, consolidando o Irã como um ferrenho opositor da ordem política e militar ocidental no Oriente Médio (Hussain, 2015)
A animosidade entre Washington e Teerã consolidou-se como um embate pela definição da arquitetura de segurança e pelo controle político do Oriente Médio (Hussain, 2015). Os Estados Unidos estruturaram alianças estratégicas e militares com os principais adversários regionais do regime iraniano, com destaque para Israel e Arábia Saudita, visando conter a expansão do governo revolucionário (Bahgat, 2023). Essa divisão geopolítica manifestou-se em guerras por procuração e disputas indiretas, visíveis no apoio ocidental e de monarquias árabes ao Iraque durante a tentativa de anexação do Cuzistão (província iraniana) na Guerra Irã-Iraque (1980-1988), conflito utilizado para enfraquecer a influência de Teerã (Coggiola, 2008). A rivalidade regional acentuou-se com a contestação de esferas de influência em nações vizinhas, dividindo o cenário geopolítico em eixos de cooperação política e militar que afetaram diretamente a estabilidade em países como a Síria, o Líbano e o Iêmen (Hussain, 2015).
Sob a perspectiva geoeconômica, a segurança e a estabilidade do mercado de recursos energéticos constituem o núcleo central do posicionamento estratégico norte-americano na região (O’Donnell, 2009). O Irã possui reservas massivas de hidrocarbonetos, posicionando-se como um ator de grande relevância no mercado global de energia (Bahgat, 2023). Desse modo, o governo norte-americano utilizou regimes contínuos de sanções econômicas e comerciais para restringir a capacidade de investimento industrial do Irã, limitar suas receitas de exportação e frear sua consolidação como potência hegemônica regional, consequentemente diminuindo a capacidade iraniana de controlar o petróleo no Oriente Médio de forma expressiva (O’Donnell, 2009).
Especificamente sobre a questão nuclear, o programa iraniano é motivo de preocupação internacional, sobretudo para os Estados Unidos e Israel devido ao temor de que o Irã desenvolvesse armas nucleares. Há receio de que isso aumente as tensões e a instabilidade no Oriente Médio, além de incentivar uma corrida armamentista na região. Nesse contexto, antes do início do conflito em 2026, já existiam diálogos e acordos sobre a questão, especialmente por meio do Plano de Ação Conjunto Global (JCPOA), firmado em 2015 entre o Irã e Estados Unidos, China, Rússia, França, Reino Unido e Alemanha - conhecidos como P5 +1 - , com mediação da União Europeia. O objetivo do JCPOA era limitar o programa nuclear iraniano em troca da retirada de sanções econômicas. Através do acordo, o Irã reduziu drasticamente seu estoque de urânio enriquecido, limitou o enriquecimento a níveis civis e aceitou inspeções da Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA). Em contraposição, recebeu o alívio das sanções, a liberação de bilhões de dólares em ativos congelados e a flexibilização das restrições ao petróleo e ao sistema bancário. No entanto, o acordo começou a enfraquecer em 2018, quando o presidente Donald Trump retirou os Estados Unidos do JCPOA e retomou a política de pressão contra o Irã, com novas sanções econômicas. Após isso, o Irã passou a descumprir gradualmente os limites do acordo e aumentou o enriquecimento de urânio, o que voltou a gerar tensões internacionais sobre seu programa nuclear (Al Jazeera, 2026; Britannica, 2026 ; International Crisis Group, 2022).
Especificamente, o ano de 2020 representou um momento de grave escalada nas tensões bilaterais devido à execução do general iraniano Qasem Soleimani por meio de uma operação militar dos Estados Unidos em território iraquiano (Bahgat, 2023). Essa ação eliminou o principal estrategista das operações regionais e das forças por procuração comandadas por Teerã no Oriente Médio (Bahgat, 2023). Apesar do impacto tático negativo para a estrutura militar iraniana, o episódio provocou uma massiva manifestação popular interna que unificou a sociedade e reergueu o sentimento de nacionalismo, que naquele contexto se encontrava fragilizado por crises domésticas (Binkaya, 2020).
Outrossim, a hostilidade mútua expandiu-se de maneira sistemática para o campo da segurança digital e das operações de guerra tecnológica (sobretudo no caso Stuxnet, que marca a era das cyber weapons) (Bahgat, 2023; BBC, 2015). O governo norte-americano intensificou o emprego de ataques cibernéticos ofensivos planejados para sabotar e desestruturar a infraestrutura industrial crítica e os sistemas de comunicação estratégica do regime iraniano (Abrahams; Willians, 2020). Esse cenário digital consolidou o uso de vírus e invasões de redes computacionais como ferramentas de coerção geopolítica de alta complexidade, transformando o ciberespaço em um dos teatros centrais de confrontação e retaliação mútua contemporânea (Adesina, 2017).
Enquanto isso, a guerra em Gaza, iniciada após os ataques do Hamas contra Israel em 2023, aumentou ainda mais as tensões no Oriente Médio, acirrando as tensões entre Irã e Israel. O Irã apoia grupos como o Hamas, na Palestina, e o Hezbollah, no Líbano, que fazem parte do chamado “Eixo da Resistência”, contrário à influência de Israel e dos Estados Unidos na região. Após a ofensiva israelense em Gaza, o Hezbollah intensificou ataques na fronteira entre Israel e Líbano, aumentando a instabilidade regional. Nesse contexto, Israel reforçou a pressão diplomática sobre os Estados Unidos para conter o Irã, argumentando que o país representa uma ameaça estratégica e nuclear. Em 2024, os confrontos indiretos entre Irã e Israel escalaram para ataques direitos através de drones e mísseis (BBC, 2026; Britannica, 2026; CFR, 2026).
Somado às tensões entre Estados, o Irã também passou a enfrentar forte instabilidade interna. Nos últimos anos, a crise econômica iraniana se agravou devido às sanções internacionais, à inflação e ao aumento do custo de vida, afetando diretamente a população. Em dezembro de 2025, ocorreram grandes protestos criticando o regime iraniano e exigindo melhores condições de vida e maior liberdade política. Em resposta, o governo intensificou a repressão, com prisões, censura digital e discursos nacionalistas e anti ocidentais para justificar o aumento do controle interno. Ao mesmo tempo, essa situação contribuiu para enfraquecer a imagem internacional de Teerã e ampliar debates sobre possíveis intervenções externas no país (Al Jazeera, 2026; Britannica, 2026).
Especificamente sobre as tensões entre Irã e EUA sobre o programa nuclear iraniano, em fevereiro de 2026, foi iniciado um processo de negociação entre as partes em Genebra, com mediação de Omã. As discussões envolviam o programa nuclear iraniano e propostas como limitar o enriquecimento de urânio, suspender atividades nucleares e desmontar instalações. O Irã também propôs ampliar investimentos e relações econômicas com os EUA. Apesar de relatos de progresso nas conversas, as negociações terminaram sem acordo definitivo. (CFR, 2026; Swissinfo, 2026).
As múltiplas rodadas de negociação em Genebra não impediram o início de uma nova fase do conflito em 28 de fevereiro de 2026, após amplos ataques conjuntos dos Estados Unidos e Israel que miraram não apenas a infraestrutura militar do Irã (especialmente os sistemas de lançadores de mísseis balísticos iranianos), mas também a alta cúpula político-militar da República Islâmica, resultando na morte estimada de 50 membros importantes do regime, incluindo o Chefe do Estado-Maior das Forças Armadas, o Ministro da Defesa, o Líder da Guarda Revolucionária e, principalmente o Aiatolá Ali Khamenei, Líder Supremo do país desde 1989 e que foi sucedido no cargo por seu filho, Mojtaba Khamenei (Al Jazeera, 2026; Institute for the Study of War, 2026).
Assim, o Irã retaliou com ataque de mísseis e drones contra Israel, contra as bases militares norte-americanas no Oriente Médio, mirando também a infraestrutura civil e energética dos países do Golfo, o que inclui Arábia Saudita, Emirados Árabes Unidos, Bahrain, Kuwait, Iraque e Jordânia (Council of Foreign Relations, 2026). Ademais, o conflito resultou na interrupção do tráfego naval no Estreito de Ormuz (por onde escoa 20% do petróleo mundial), não só devido ao risco às embarcações, mas também devido ao bloqueio parcial do estreito pelo Irã, o qual visa impor o bloqueio como um instrumento de barganha política (Britannica, 2026; CFR, 2026). Concomitantemente aos ataques ao Irã, Israel atacou o Hezbollah no Líbano, encerrando um frágil cessar-fogo que existia desde 2024. O conflito escalou após retaliações do Hezbollah e dos Houthis no Iêmen, resultando em ataques nas proximidades de Beirute e na ocupação militar israelense de diversas porções no Sul país (Britannica, 2026; CFR, 2026).
As narrativas utilizadas para justificar os ataques a partir de fevereiro são múltiplas, com diferentes membros dos governos estadunidense e israelense apresentando diversas motivações e objetivos para o conflito. Primeiramente, o Presidente Donald Trump centrou a narrativa na ameaça do regime iraniano aos EUA e seus aliados, na questão do programa nuclear iraniano (os EUA já haviam atacado as principais usinas nucleares iranianas em junho de 2025) e no objetivo de enfraquecer os grupos apoiados pelo Irã que contribuem para a desestabilização da região. Em contrapartida, o Secretário de Estado dos EUA, Marco Rubio, justificou a participação americana nos ataques devido à pressão israelense por um ataque preemptivo (Sheinerman; Ruehl, 2026). Além disso, a Diretora de Inteligência Nacional dos EUA afirmou que, apesar da cooperação durantes os ataques, os objetivos israelenses e norte-americanos no conflito são distintos, com os primeiros focando em desestabilizar o governo iraniano, e os últimos objetivando destruir o programa de mísseis balístico e a marinha persa (Reuters, 2026). Dessa maneira, as múltiplas e, por vezes, contraditórias narrativas e objetivos apresentados tornam complexa a compreensão da política externa dos Estados Unidos e de Israel para a região.
O conflito tem revelado consequências locais, regionais e globais que ultrapassam amplamente o campo militar. No plano econômico, a interrupção (seletiva) de passagem pelo Estreito de Ormuz ameaça a estabilidade dos mercados internacionais, pressionando cadeias globais de abastecimento e causando efeitos inflacionários internacionais (Guterres, 2026).1 Na questão humanitária, além das milhares de mortes de combatentes e civis (principalmente no Irã e Líbano), o conflito tem aumentado deslocamentos populacionais, colapso de serviços e destruição de infraestrutura civil- principalmente por ter intensificado múltiplas frentes simultâneas de ataques em territórios já fragilizados por guerras anteriores (Gaza, Líbano, Síria e Iêmen) (Vigersky, 2026; Kukhalashvili, 2026). Ataques recorrentes em instalações industriais e energéticas no Irã e países do Golfo também têm produzido impactos ambientais relevantes, incluindo contaminação da água, do solo e do ar (Webber, 2026). Além destes impactos imediatos, o conflito pode produzir consequências duradouras para a política internacional e para o equilíbrio regional, pois tem estimulado a intensificação da militarização no Oriente Médio e de expansão nuclear internacional (Cole, 2026).
As negociações entre Irã e Estados Unidos se intensificaram em 2026, mediadas principalmente pelo Paquistão, que sediou reuniões em Islamabad e tentou intermediar propostas de cessar-fogo. O processo tem sido marcado por momentos de avanço e de tensão, com tréguas temporárias e instabilidades frequentes, especialmente no Estreito de Ormuz. O Irã exige o fim das hostilidades, incluindo no Líbano, além da retirada das sanções e do reconhecimento de sua influência regional, enquanto os Estados Unidos rejeitam parte dessas exigências, apesar de afirmarem que há progresso nas conversas. Paralelamente, os conflitos entre Israel e Hezbollah no Líbano passaram a influenciar diretamente as negociações, já que os confrontos na região aumentam as tensões e dificultam acordos mais amplos entre Irã e EUA (Al Jazeera, 2026; Britannica, 2026; CFR, 2026).
Desde o início dos ataques, a promessa da administração Trump foi de uma ofensiva rápida e decisiva capaz de não dar opções ao Irã, a não ser a rendição total ou a submissão a um acordo desenhado em Washington. Mesmo após as retaliações iranianas em países da região, em cujo território existiam bases militares estadunidenses, houve recusa dos EUA em categorizar o conflito como guerra. Alguns líderes ocidentais, e alinhados à doutrina de Trump, celebraram a ofensiva, como Canadá, Austrália e Argentina (Canadá, 2026; Albanese, 2026; Argentina, 2026), outros condenaram apenas as retaliações iranianas (France, 2026; Paraguay, 2026), e alguns poucos mandatários se colocaram contra os ataques iniciais, classificando-os como ilegais segundo as regras internacionais, como foi o caso do Brasil, da Colômbia, da Rússia e da China (Brasil, 2026; Petro, 2026; Russia, 2026; China, 2026). A evolução do conflito demonstrou inúmeras contradições discursivas por parte dos EUA e diversos empecilhos nas negociações de pacificação. Foram várias as quebras de cessar-fogo, supostamente de ambas as partes, mas em especial por Israel, uma vez que o Irã colocou o fim dos ataques ao Líbano e a Gaza como condição de qualquer negociação possível. Com o controle do Estreito de Ormuz pelo Irã e o consequente agravamento da crise econômica global - já considerada o maior choque de segurança energética da história moderna (UNCTAD, 2026) -, a pressão de diversos países para o fim da guerra aumentou (Ellyat, 2026), assim como a incapacidade dos EUA de imporem sua agenda na região vem ficando cada vez mais evidente para os líderes mundiais (Byman, 2026).
Dessa forma, o conflito entre Irã, Estados Unidos e Israel não pode ser compreendido apenas como uma disputa militar imediata, mas como resultado de processos históricos acumulados que articulam interesses estratégicos, disputas por influência regional, segurança energética, rivalidades ideológicas e questões nucleares. A escalada observada em 2026 evidencia como tensões históricas não resolvidas podem transformar crises regionais em ameaças de alcance global, afetando mercados internacionais, estabilidade política e condições humanitárias em múltiplos países do Oriente Médio. Ao mesmo tempo, as negociações em curso demonstram que, apesar da intensificação dos confrontos, permanece aberta a possibilidade de rearranjos diplomáticos que poderão redefinir o equilíbrio regional e, de forma mais ampla, os rumos da política internacional.
Referências
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Pelo Estreito, transita parcela significativa do petróleo, gás natural, fertilizantes, alumínio, produtos químicos, e uma ampla variedade de produtos manufaturados que mantêm em funcionamento especialmente cadeias de abastecimento na Ásia, Europa e América do Norte. Especificamente sobre os fertilizantes, mais de 30% dos comercializados mundialmente passam pelo Estreito, o que ameaça diretamente à segurança alimentar global de países da África, Ásia e América do Sul (The World Data, 2026; Guterres, 2026). ↩︎
