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Projetos / Observatório de Conflitos / Colômbia

Observatório de Conflitos

Acompanhamento sistemático de conflitos armados e crises geopolíticas em andamento globalmente, pelo NPSeD/UFSC.

27
Conflitos
monitorados
4
Categorias
UCDP · COW
ago/2026
Última
atualização

Colômbia

Localização
Mapa do conflito: Colômbia
Classificação
Guerra Intraestatal
Guerra civil por questões locais
América do Sul
Status
Ativo
Principais combatentes
Forças Armadas da Colômbia × Exército de Libertação Nacional (ELN) × dissidências das FARC, incluindo o Estado-Maior Central (EMC) e a Segunda Marquetalia × Clan del Golfo (AGC)

Última atualização ago/2026

O conflito armado colombiano se encontra em sua fase mais intensa desde o acordo de paz de 2016, com a política de “paz total” do governo Petro terminando sem nenhum acordo definitivo assinado e com os diversos grupos armados como o ELN, as dissidências das FARC e o Clã do Golfo em expansão e disputa territorial entre si. Os últimos meses foram caracterizados pela grave crise diplomática com os Estados Unidos, pela violência política em ano eleitoral e pela eleição de um novo presidente que promete uma guinada militarista contra os grupos armados.

O segundo semestre de 2025 teve como principais acontecimentos a morte do senador e pré-candidato presidencial Miguel Uribe Turbay, vítima de um atentado atribuído à Segunda Marquetalia e primeiro assassinato de um candidato presidencial em 35 anos no país, e os atentados de agosto, em que dissidências das FARC derrubaram com um drone um helicóptero policial em Amalfi e detonaram um carro-bomba diante da base aérea de Cali. Também marcou o semestre a escalada sem precedentes das tensões com os Estados Unidos, com a retirada da certificação da Colômbia na luta antidrogas, a morte de um pescador colombiano em um ataque americano a embarcações no Caribe e a inclusão de Petro na Lista Clinton, primeira sanção a um presidente colombiano em exercício. Já a guerra entre o ELN e as dissidências pelo controle do Catatumbo continuou durante todo o período, enquanto governo e Clã do Golfo firmaram em Doha um acordo prevendo zonas de concentração de combatentes.

Os acontecimentos no primeiro semestre de 2026 foram os efeitos da captura de Nicolás Maduro pelos Estados Unidos, que elevou as ameaças de Trump à Colômbia antes da distensão trazida pela reunião entre Petro e Trump na Casa Branca. O aprofundamento da crise humanitária no Catatumbo e o paro armado do ELN no Chocó. O colapso das negociações da “paz total”, com o fim dos diálogos com as dissidências e a suspensão das zonas de concentração do Clã do Golfo. Como também a vitória de Abelardo de la Espriella, que desmontou a “paz total”, lançou uma ofensiva militar contra todos os grupos armados e alinhou o país aos Estados Unidos ao ingressar no “Escudo de las Américas”.

Histórico

O conflito armado na Colômbia possui raízes históricas profundas e complexas, que remontam a meados do século XX. Inicialmente, a violência política no país foi marcada por um período conhecido como “La Violencia” (1948-1958), que se seguiu ao assassinato do líder político Jorge Eliécer Gaitán em 1948. Esse período de intensa polarização e confrontos entre liberais e conservadores criou um terreno fértil para o surgimento de grupos armados.

Nesse contexto, as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (FARC-EP) foram fundadas em 1964, inicialmente como um grupo de autodefesa camponesa. No entanto, ao longo das décadas de 1980 e 1990, as FARC-EP se envolveram profundamente no narcotráfico, o que lhes permitiu fortalecer significativamente seu poder militar e expandir sua atuação. Em 24 de novembro de 2016, um marco histórico foi alcançado com a assinatura de um acordo de paz entre as FARC-EP e o governo colombiano e mediado pela ONU. O tratado inclui a organização de aspectos operacionais do Mecanismo Conjunto de Monitoramento e Verificação do cessar-fogo, formado pelo Governo da Colômbia e pelas FARC-EP, e coordenado pela Missão da ONU. Também inclui visitas a acampamentos das FARC-EP e unidades da Força Pública para garantir o cumprimento do cessar-fogo e a cessação das hostilidades. A Missão da ONU também foi encarregada de manter contato com as populações locais para garantir que seus direitos sejam respeitados.

Paralelamente, o Exército de Libertação Nacional (ELN), também surgido em 1964, inspirado pela Revolução Cubana e pela teologia da libertação, manteve uma estrutura mais descentralizada. Assim como as FARC, o ELN também recorreu a atividades criminosas, como sequestros e extorsões, para financiar suas operações. Embora ambos os grupos tivessem objetivos semelhantes de derrubar o governo colombiano e implementar um regime marxista, frequentemente entraram em conflito entre si, uma rivalidade que se intensificou após o acordo de paz de 2016, com facções dissidentes das FARC continuando a lutar e, muitas vezes, confrontando o ELN. Esses conflitos deixaram um legado de violência e instabilidade na Colômbia, resultando em no mínimo 400 mortos e deslocados internos em um único embate, de acordo com a ONU(Acled, 2024; Pereira, 2015) .

As parcerias entre a Colômbia e os Estados Unidos têm sido um pilar fundamental na luta contra o narcotráfico e na busca pela estabilidade regional. Um dos exemplos mais proeminentes dessa cooperação é o Plano Colômbia, um acordo bilateral concebido em 1999. Originalmente, o Plano visava eliminar o narcotráfico, desestruturar grupos guerrilheiros como as FARC e promover o desenvolvimento social e econômico. Embora tenha recebido críticas e elogios, o Plano Colômbia contribuiu para fortalecer o governo colombiano e suas forças armadas, aumentando o controle estatal sobre o território. No entanto, também gerou impactos negativos no meio ambiente e na saúde das populações devido à fumigação de plantações de coca. Após os atentados de 11 de setembro, a abordagem do Plano mudou, com o conflito colombiano sendo requalificado como parte da “guerra contra o terrorismo”, o que direcionou a maior parte dos recursos para o reforço militar e policial. Em 2016, o Plano Colômbia foi substituído pelo programa Paz Colômbia, com os EUA garantindo um apoio econômico significativo para o pós-acordo de paz.

A situação na fronteira com a Venezuela, uma área de 2.219 km na porção noroeste da América do Sul, continua a ser um ponto crítico de violência e instabilidade. Essa região é historicamente uma rota para o narcotráfico e é ocupada por grupos guerrilheiros rivais, como dissidentes das FARC e o ELN. As relações entre Colômbia e Venezuela, embora restabelecidas em 2022 após um rompimento de três anos, são marcadas por tensões diplomáticas e políticas. O governo venezuelano, sob Nicolás Maduro, foi acusado de proteger e auxiliar as FARC, o que levou a um aumento da violência na fronteira. Em 2021, o exército venezuelano chegou a se deslocar para a região para conter os conflitos, resultando em confrontos diretos com os guerrilheiros. A disputa territorial e o controle do tráfico de drogas e atividades de garimpo são os principais motivadores desses conflitos, que resultam em um grande número de refugiados, deslocados internos, e um aumento nas despesas com segurança para ambos os países.

Além dos Estados Unidos, outros atores externos desempenham papéis importantes no conflito colombiano, como a Organização dos Estados Americanos (OEA), por exemplo, atua na desmobilização de grupos paramilitares através da Missão de Apoio ao Processo de Paz (MAPP/OEA). A atuação da OEA reflete a internacionalização do conflito, onde a participação de atores estrangeiros em programas de resolução de conflitos é um fator relevante. (Villa; Vianna, 2012)

O governo colombiano, sob a liderança do presidente Gustavo Petro, tem buscado negociar um cessar-fogo e acordos de paz com esses grupos para reduzir a violência nas áreas rurais e parar com os sequestros como forma de financiamento. No entanto, os combates entre o ELN e as dissidências das FARC continuam em algumas regiões, resultando em mortes e deslocamentos de civis. Em algumas áreas, esses grupos até colaboram em atividades como mineração ilegal e narcotráfico, entretanto fora disso mantêm-se como rivais. Não há previsão de término do conflito, que permanece ativo e representa uma série de ameaças à segurança regional.(Acled, 2023; EFE, 2024)

Em janeiro de 2025, Petro suspendeu as negociações com o ELN, após ataques do grupo em Catatumbo que deslocaram mais de 50.000 pessoas. No entanto, em maio do mesmo ano, o presidente propôs retomar as conversas de paz com o ELN, sugerindo que o Vaticano poderia sediar as negociações. O ELN, por sua vez, prefere manter os diálogos em Cuba ou Venezuela. Petro ordenou a suspensão de uma ofensiva militar contra uma facção dissidente das FARC, conhecida como Estado-Maior Central (EMC) para avançar nas negociações de paz. (ONU, 2025).

Referências

AGÊNCIA EFE (Brasil) (org.). Conflitos armados obrigaram o deslocamento de 145 mil civis na Colômbia em 2023. 2024. Disponível em: https://www.gazetadopovo.com.br/mundo/conflitos-armados-obrigaram-o-deslocamento-de-145-mil-civis-na-colombia-em-2023/. Acesso em: 31 out. 2024.

ARMED CONFLICT LOCATION & EVENT DATA. ACLED data. Disponível em: https://acleddata.com. Acesso em: 25 jun. 2025.

ARMED CONFLICT LOCATION & EVENT DATA (Estados Unidos) (org.). Armed Groups in Colombia. 2023. Disponível em: https://acleddata.com/knowledge-base/acled-methodology-for-coding-political-armed-groups-in-colombia/. Acesso em: 31 out. 2024

ARMED CONFLICT LOCATION & EVENT DATA (Estados Unidos) (org.). Colombia: Peace Talks, Worsening Violence, and a Deeply Fragmented Conflict Landscape. 2023. Disponível em: https://acleddata.com/conflict-watchlist-2023/colombia/. Acesso em: 31 out. 2024.

ORGANIZAÇÃO DAS NAÇÕES UNIDAS. Eight Years On, Significant Obstacles Remain to Implementing Colombia’s Historic Peace Accord, Special Representative Tells Security Council, Warning of Resurging Violence. New York: United Nations, 22 abr. 2025. Disponível em: https://press.un.org/en/2025/sc16048.doc.htm. Acesso em: 20 maio 2025.

PEREIRA, Letícia. Colômbia: As FARC e os Diálogos de Paz. V. 2, n. 1. fev. 2015. Disponível em: https://www.ufsm.br/app/uploads/sites/474/2022/02/TCC-Oconflito-armado-colombiano-%E2%80%93-impactos-regionais-na-area-daseguranca-estatal-e-humana.-1.pdf. Acesso em: 25 jun. 2025.

UNITED NATIONS. UN chief welcomes new peace deal between Colombian Government and FARC-EP. UN News, 24 Nov. 2016. Disponível em: https://news.un.org/en/story/2016/11/546222. Acesso em: 3 set. 2025.

VILLA, Rafael Duarte; VIANA, Manuela Trindade. Internacionalização pelo envolvimento de atores externos no conflito colombiano: atuação da OEA na desmobilização de grupos paramilitares na Colômbia. Dados, v. 55, n. 2, p. 403-445, 2012. Disponível em: https://www.scielo.br/j/dados/a/3dRPfg36NrTbLDmm5Lm4ghR/. Acesso em: 25 jun. 2025.

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