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Observatório de Conflitos

Acompanhamento sistemático de conflitos armados e crises geopolíticas em andamento globalmente, pelo NPSeD/UFSC.

27
Conflitos
monitorados
4
Categorias
UCDP · COW
ago/2026
Última
atualização

Coreia do Sul e do Norte

Localização
Mapa do conflito: Coreia do Sul e do Norte
Classificação
Guerra Interestatal
Leste Asiático
Status
Suspenso
Principais combatentes
Forças Armadas da Coreia do Sul × Exército Popular da Coreia do Norte

Última atualização ago/2026

Entre 2025 e 2026, o conflito na Península Coreana permaneceu marcado pelo aumento das tensões militares e pelo aprofundamento da divisão política entre as duas Coreias. A Coreia do Norte intensificou o desenvolvimento de seu programa nuclear e de mísseis balísticos e ampliou sua cooperação estratégica com a Rússia ao mesmo tempo em que consolidou uma nova doutrina estatal que abandona oficialmente o objetivo histórico da reunificação e passa a tratar a Coreia do Sul como um Estado separado e hostil. Em resposta, a Coreia do Sul manteve sua política de fortalecimento da dissuasão em parceria com os Estados Unidos, embora o governo sul-coreano tenha sinalizado, em 2026, uma estratégia de “paz em primeiro lugar”, buscando priorizar a redução gradual das tensões sem abandonar a meta de desnuclearização da península. Apesar desses esforços diplomáticos, o diálogo intercoreano permanece praticamente paralisado, enquanto a continuidade dos testes de mísseis norte-coreanos, o fortalecimento das capacidades militares de Pyongyang e a crescente rivalidade entre Estados Unidos, China e Rússia mantêm a Península Coreana como um dos principais focos de instabilidade e competição estratégica no Indo-Pacífico.

Histórico

A Península Coreana constitui uma anomalia persistente na ordem internacional contemporânea, sua caracterização como um conflito internacional congelado é analiticamente útil, mas se arrisca a ofuscar a natureza dinâmica e a volatilidade latente de uma confrontação que se perpetua há mais de sete décadas. Na realidade, trata-se de um conflito estruturalmente entrincheirado, um legado direto da Guerra Fria cuja resolução foi sistematicamente obstruída pela sobreposição de interesses geopolíticos globais e regionais. A sua delimitação geográfica, a Zona Desmilitarizada (DMZ) ao longo do Paralelo 38 (representada na Figura 1), funciona menos como uma fronteira e mais como a manifestação física de uma fratura ideológica e o epicentro de uma das mais densas concentrações militares do planeta. Os atores beligerantes diretos, a República Popular Democrática da Coreia e a República da Coreia - conhecidas, popularmente, como Coreia do Norte e Coreia do Sul, respectivamente - operam como protagonistas em um palco cujas dinâmicas são inseparáveis dos seus atores externos: os Estados Unidos, como pilar da aliança de segurança com Seul, e a República Popular da China, como o principal sustentáculo estratégico de Pyongyang. Completam este complexo sistema de poder a Rússia, como sucessora da União Soviética, e o Japão, cuja proximidade geográfica e alinhamento com os EUA o tornam um ator fundamental na disputa. ; (Hitkari, 2024); (Cumings, 2005).

Figura 1 - Mapa(Souza et al., 2025) da Zona Desmilitarizada

[Figura não reproduzida nesta versão. Fonte: UNITED STATES. Central Intelligence Agency. Korea demilitarized zone [mapa]. 1969. Library of Congress]

Uma análise aprofundada do impasse exige uma imersão no seu contexto histórico, que transcende o início formal da Guerra da Coreia, com a gênese da divisão residindo na libertação coreana do domínio japonês após o fim da Segunda Guerra Mundial, em 1945, um momento que, em vez de restaurar a soberania de um nação historicamente unificada, impôs-se uma tutela externa arbitrária pelas potências vitoriosas. A ocupação soviética a norte, e a estadunidense a sul, concebidas como uma medida temporária, rapidamente catalisaram a formação de dois regimes diferentes e antagônicos, exacerbando fissuras ideológicas internas já presentes na sociedade coreana. A Guerra que eclodiu em 1950, teve início com a ofensiva norte-coreana ao sul do Paralelo 38 e rapidamente levou o Conselho de Segurança da ONU a autorizar uma força multinacional, liderada pelos Estados Unidos, em apoio à Coreia do Sul, configurando o primeiro grande emprego de tropas sob a bandeira das Nações Unidas. A resposta internacional empurrou as forças de Kim Il-sung para além da linha de demarcação, o que provou a entrada massiva da China Popular no conflito, tanto para proteger sua fronteira nordeste, quanto para preservar o regime socialista em Pyongyang. Embora inquestionavelmente uma guerra civil na sua origem, foi imediatamente internacionalizada, tornando-se o primeiro grande confronto por procuração da Guerra Fria. A devastação foi quase total, resultando em milhões de mortos e na solidificação de uma divisão que o Acordo de Armistício de 19531 apenas suspendeu, sem nunca resolver juridicamente. O pós-conflito que se seguiu é uma narrativa de divergência radical: enquanto o Sul, sob a proteção da segurança americana, transitou de uma ditadura militar para uma democracia industrializada e uma potência econômica global, já o Norte se consolidou como um Estado em que maior parte dos seus gastos são destinados a despesas militares, desenvolvido a partir da ideologia Juche - ideologia construída por Kim Il-sung, baseada no marxismo-leninismo, que coloca ênfase central nas questões de autossuficiência e soberania nacional - e da política Songun - que prioriza as forças armadas nos assuntos estatais - como doutrinas de sobrevivência num ambiente percebido como irremediavelmente hostil. (Halberstam, 2007); (Cumings, 2010); (Souza et al., 2025); (Hitkari, 2024).

A persistência do conflito é mais bem compreendida através da análise de interesses estratégicos interdependentes dos atores envolvidos que criam um ciclo de segurança vicioso. Para a Coreia do Norte, o objetivo supremo é a sobrevivência do regime. Nesta ótica, o desenvolvimento de um arsenal nuclear robusto não é um ato de agressão irracional, mas sim a garantia existencial última, uma forma de segurança contra as muitas tentativas de mudança de regime impostas pelo exterior. As armas nucleares funcionam simultaneamente como dissuasor, como ferramenta de diplomacia coercitiva e como pilar da identidade nacional. Para a Coreia do Sul, o interesse primordial é a dissuasão e a estabilidade, essenciais para a salvaguarda da sua próspera economia. Este objetivo é alcançado, principalmente, através da aliança militar com os Estados Unidos, cujo interesse na península é multifacetado: manter a credibilidade das suas alianças, projetar poder no Indo-Pacífico, conter a ascensão da China e prevenir a proliferação nuclear. A presença militar americana e os exercícios conjuntos, no entanto, são interpretados por Pyongyang como uma ameaça direta, reforçando a justificação para o seu programa de armamento. Por sua vez, a China persegue um objetivo de estabilidade calculada, o seu interesse estratégico dominante é evitar o colapso do regime norte-coreano, o que criaria um vácuo de poder, uma potencial crise de refugiados e, o pior cenário, uma Coreia unificada aliada a Washington na sua fronteira. A Coreia Popular funciona, assim, como uma zona-tampão estratégica indispensável, levando Pequim a priorizar a estabilidade do regime sobre a desnuclearização, apesar da sua desaprovação do programa nuclear norte-americano. (Halberstam, 2007); (Cumings, 2010); (Souza et al., 2025); (Hitkari, 2024).

Entende-se, assim, que os acontecimentos contemporâneos devem ser puramente interpretados à luz desse interesses, uma vez que o avanço qualitativo e quantitativo do programa nuclear e de mísseis balísticos da Coreia do Norte alterou permanentemente o cálculo estratégico, conferindo a Pyongyang uma capacidade de dissuasão credível. Os ciclos de diplomacia, como a Cimeira de Singapura em 20182, demonstraram a intransponibilidade das posições: os EUA exigindo uma desnuclearização completa, verificável e irreversível como pré-condição para o alívio substancial das sanções, e a Coreia do Norte propondo uma abordagem faseada e recíproca que Washington considera insuficiente. O fracasso dessas iniciativas levou a um regresso à normalidade das provocações e da demonstração de força. Desde o final da década de 2010, a reconfiguração da geopolítica global, marcada pela competição estratégica entre os EUA e China e pela guerra da Ucrânia, iniciada com a invasão russa de 24 de fevereiro de 2022, introduziu uma nova variável crítica: o aprofundamento da cooperação estratégica entre Pyongyang e Moscou. Esta aliança de conveniência oferece à Coreia do Norte um escape ao regime de sanções internacionais, acesso a tecnologia e apoio diplomático, diminuindo a sua dependência da China e solidificando um eixo que mina os esforços diplomáticos liderados pelo Ocidente. A análise revela, em conclusão, que o conflito coreano transcende a sua designação de “congelado” ou de estagnado. É um impasse estrutural e dinâmico, cuja intratabilidade deriva da sua posição única na interseção de uma guerra civil não resolvida, de uma fratura ideológica profunda e das linhas de entidades racionais que operam dentro de lógicas de segurança fundamentalmente incompatíveis, resultando em um dilema de segurança clássico, mas com uma dimensão nuclear. A Coreia do Norte, longe de ser irracional, persegue a sua sobrevivência através de uma estratégia de dissuasão de alto risco. Os EUA e a Coreia do Sul respondem com uma lógica de contenção e de dissuasão reforçada que, por sua vez, valida a narrativa de cerco de Pyongyang. Consequentemente, a Península Coreana persiste como um dos mais perigosos focos de instabilidade global, não apenas devido às animosidades locais, mas porque funciona como um barômetro e um palco para a rivalidade estratégica mais vasta entre os Estados Unidos e a China. Qualquer perspectiva de resolução duradoura está, portanto, menos dependente de uma fórmula diplomática inovadora e mais intrinsecamente ligada à evolução futura de equilíbrio de poder no Indo-Pacífico. (Cumings, 2005); (Halberstam, 2007); (Cumings, 2010); (Souza et al., 2025); (Hitkari, 2024).

Referências

CUMINGS, Bruce. Korea’s Place in the Sun: A Modern History. New York: W. W. Norton, 1997.

CUMINGS, Bruce. The Korean War: A History. New York: Modern Library, 2010.

HALBERSTAM, David. The Coldest Winter: America and the Korean War. New York: Hyperion, 2007.

HITKARI, Cherry. Understanding China’s Participation in the Korean War 1950–53 Through Propaganda Songs. New Delhi: Institute of Chinese Studies, 2024. (ICS Occasional Paper, n. 108). Disponível em: https://icsin.org/uploads/2024/08/05/df5accc9abfe38ba2fbf4265eb9272cd.pdf. Acesso em: 02 abril 2026.

SOUZA, Aleksandro Ricardo de; SANTOS, João Marcos Passos dos; SILVA, Victor Ramos da. A Guerra da Coreia 1950–1953 sob o viés da Guerra Fria e seus efeitos no mundo atual. Ciência Atual, Rio de Janeiro, v. 22, n. 1, p. 1479–1497, 2025. Disponível em: https://revista.saojose.br/index.php/cafsj/article/view/790/664. Acesso em: 02 abril 2026.


  1. O Acordo de Armistício de 1953 foi a trégua assinada em Panmunjom entre o comando da ONU, a Coreia do Norte e a China, que encerrou os combates e criou a Zona Desmilitarizada no Paralelo 38, sem pôr fim jurídico à guerra (Souza et al., 2025). ↩︎

  2. A Cimeira de Singapura, realizada em 12 de junho de 2018, foi o primeiro encontro entre líderes dos EUA e da Coreia do Norte e produziu um documento comum sobre paz na península, desnuclearização e repatriação de prisioneiros de guerra (Souza et al., 2025). ↩︎

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