Observatório de Conflitos
Acompanhamento sistemático de conflitos armados e crises geopolíticas em andamento globalmente, pelo NPSeD/UFSC.
monitorados
UCDP · COW
atualização
Haiti
Última atualização ago/2026
Em janeiro de 2026 o Haiti passou por tentativas internas de destituir o premiê Alix Didier Fils-Aimé, e em 7 de fevereiro o Conselho Presidencial de Transição se dissolveu, deixando-o como líder único apoiado pelos Estados Unidos. Em março, um relatório da Organização das Nações Unidas apontou mais de 5.500 mortos entre janeiro de 2025 e março de 2026, com as gangues consolidando controle apesar de um policiamento mais agressivo, quadro agravado por massacres em áreas centrais e novos deslocamentos em massa em maio, embora o domínio das gangues na capital tenha recuado de 90% para 70%. Por fim, em julho do ano vigente o conselho eleitoral marcou o primeiro pleito presidencial em uma década para dezembro do mesmo, com segundo turno em fevereiro de 2027, condicionado à melhora da segurança.
Histórico
Em meio a porção ocidental da ilha de Hispaniola nas Antilhas, o Haiti possui uma trajetória nitidamente marcada por profundas transformações coloniais e sociais, em que inicialmente habitavam diversos grupos nativos e colonizado por espanhóis, o território passa por um domínio francês de nome Saint-Domingue após o Tratado de Ryswick em 1697, o que torna uma colônia baseada na exploração de lavouras e no tráfico de africanos escravizados (Seguy, 2014). Nessa conjuntura, o primeiro conflito armado que se têm conhecimento advém da própria origem do país, em que os cativos africanos e os fugitivos (conhecidos como marrons), lutavam contra o sistema colonial e escravocrata francês. Por meio dessa égide, historicamente o conflito começará a partir do Cerimônia de Bois-Caiman, em 1791, em que os escravizados pegaram em armas e executaram o plano de combate que consistia em deteriorar a própria produção, até sua própria independência em 1804 (Seguy, 2014).
Todavia, é notório a observação de que a acumulação de capital a partir da extração advinda da exploração colonial haitiana, possibilitou o desenvolvimento da burguesia francesa (Seguy, 2014). Esse processo, notadamente, advém da colonização francesa que iniciará a partir do declínio do império espanhol, em que a ilha foi oficialmente dividida em 1697 por meio do Tratado de Ryswick, em que a Espanha ficou com a parte leste (o que seria a atual República Dominicana) e cedeu a parte oeste, o Haiti, para a França, que vira o foco econômico ser modificado para uma agricultura intensiva.
Essa construção perpassa de forma contemporânea os conflitos armados na região, contudo ainda no século XIX, em 1807 houvera um conflito armado na região suoeste (Grand’Anse), liderados por Jean-Baptiste Perrier, em que os agricultores pegaram em armas para lutar pelos direitos à posse da terra contra a nova burguesia republicana, o que perdurou até 1820 (Seitenfus, 2019). A independência da nação caribenha da França, fez com que o Haiti se tornasse a primeira república liderada por negros, que após as décadas da dinastia de Duvalier (1957-1986), houve a tentativa de inaugurar uma democracia a partir da eleição de Jean-Bertrand Aristide em 1990, que foi encerrada por meio de um golpe militar conduzido por Raoul Cédras, no ano seguinte. Desse modo, a comunidade internacional intervir militarmente no país, como na operação estadunidense de 1994 que restaurou o governo de Aristide.
Sob o signo da força imperialista dos Estados Unidos no século XX, o país iniciou um novo conflito armado em 1915. Dessa forma, as tropas estadunidenses ao invadirem o Haiti, os camponeses lutaram contra as forças invasoras norte-ameranas sob a liderança do revolucionário nacionalista Charlemagne Péralte ((Seitenfus, 2019)
Nesse mesmo contexto, a polarização política continuou até a crise de 2004 em que uma rebelião armada interna liderada por ex-militar, forçou a deposição e o exílio de Aristide (Seitenfus, 2019) , e que nesse palco, a operação MINUSTAH nascia como um meio de utilização de tropas estrangeiras para resolver problemas, advindo sobretudo, de disputas políticas não pacificadas e dos reflexos socioeconômicos da região. De forma contemporânea, neste século, o Haiti perpassou em 2004, pela chamada ‘’Internacional Comunitária’’, em que através de uma Missão de Estabilização promovida pela ONU (MINUSTAH) e com tropas lideradas pelo Brasil, com o objetivo de conter os conflitos populares e forças uma paz social, contudo a missão serviu também como um aparato de coerção e repressão (Seguy, 2014)..
O cenário que culminou o início da operação, era de extrema violência dominado por grupos armados e gangues, que ao fim e ao cabo, buscavam estabelecer o controle territorial, além de atuar no comércio de drogas. De forma sistemática, é possível listar a atuação da ‘’Gangue 117’’ que praticavam extorsões na região metropolitana de Porto Príncipe, no Haiti. Cabe pontuar, o grande arsenal controlado pela gangue, e os ataques às indústrias da região, que culminaram em uma expulsão em 2012 por outro grupo chamado ‘’Tolerance Zero’’, sendo obrigado a se refugiarem na comunidade de Simon, que futuramente expandiu-se para a comunidade de Pele. Já no final de 2013, houve uma forte ofensiva após o ex-líder da região aliar-se a gangues de Cité Soleil, conhecida como uma das maiores favelas do Haiti, o que fez com que a Gangue 117 fosse obrigada a recuar e dominar apenas a comunidade de Simon (Do Couto Pereira, 2016).
A operação de paz mencionada em linhas anteriores, passou a ter sucesso após a alteração da abordagem estratégica militar, que resultou na assinatura de um Acordo de Paz em março de 2015, entre as comunidades rivais (Do Couto Pereira, 2016). Nesse contexto, o comando militar brasileiro da MINUSTAH, liderado inicialmente pelo general Augusto Heleno, utilizam a chamada ‘’Doutrina 6 e ½’’ que realiza ações sociais para ganhar a confiança da população e evitar o uso da força militar em zonas povoadas, argumentando nesse pretexto, a necessidade de pacificação em zonas ocupadas. Esse cenário mudou, a partir de 2005, em que ocorreu a utilização de helicópteros, blindados que eliminaram o líder da gangue, Dread Wilmé, cuja gangue era pró-Aristide de Bois Neuf (ou gangue de Cité Soleil).
A isso soma-se, o ano de 2010, em que o Haiti passa por três acontecimentos díspares. Notadamente, o terremoto de 2010, que em 12 de janeiro destruiu a região metropolitana de Porto Príncipe, fez com que o Estado tenha perdido um terço dos seus funcionários. Em relação a essa fragilização estatal, foi criada a Comissão Provisória para Reconstrução do Haiti (CIRH), co-presidida por Bill Clinton (Seguy, 2014). Considerada como um fracasso institucional, a comissão a partir de um modelo híbrido, pendia de forma majoritária para os doadores internacionais, mesmo que co-presidida pelo primeiro-ministro haitiano da época.
Na mesma intensa década, houve no país uma grave epidemia de cólera, em outubro do mesmo ano, advindas principalmente da contaminação do Rio Artibonite. Já em novembro de 2010, houve um golpe eleitoral no país por meio de uma intervenção direta, coercitiva e fraudulenta de um consórcio internacional liderado por Estados Unidos, França, Canadá, ONU e OEA. A partir dessa máxima, houve uma escalada coreografada, a partir da destituição de Edmond Mulet, chefe da Minustah na época, que ofereceu exílio ao presidente governista René Préval, e seguiu com a aberta coação sobre o Conselho Eleitoral Provisório para que fossem adulteradas os mapas de votação. Por meio da resistência local, a comunidade internacional financiou pesquisas que comprovem os candidatos Michel Martelly no segundo turno e inflamar o boicote da oposição. Nesse interregno, houve o ápice do constrangimento diplomático com a visita da então Secretária de Estado norte-americana, Hillary Clinton, na capital, que chancelou o vazamento prévio dos dados adulterados à imprensa global e asfixiou financeiramente o governo haitiano. Isso resultou na presidência de Martelly, respaldado pela maior abstenção da história do país e cerca de 15,2% de eleitores registrados (Seguy, 2014; Seitenfus, 2019).
Nessa linha do tempo, o Haiti contemporâneo vivencia uma dramática transição de uma crise de segurança pública para o limiar formal de um conflito armado não internacional, em que a linha entre a criminalidade urbana e a guerra aberta se dissolveu a partir de uma crise humanitária. Com base nisso, a consolidação de gangues Viv Ansanm, controla cerca de 90% do território de Porto Príncipe e foi designada como um grupo terrorista transnacional pelos Estados Unidos (Berdefy et al., 2026). De mesma forma, essa aliança foi fundida para enfrentar o governo e as forças de segurança de maneira coordenada, desde setembro de 2023, quando as federações rivais do Haiti, a G9 an Fanmi, liderada por Jimmy Chérizier e a G-Pèp, liderada por Jean Pierre Gabriel, ‘’Ti Gabriel’’, realizaram uma trégua. Tal trégua entre as facções haitianas, deu lugar a um pragmatismo de sobrevivência e ambição política (Berdefy et al., 2026). Diante de uma iminência de uma intervenção militar estrangeira liderada pelo Quênia, os líderes dos grupos armados perceberam que o desgaste dos confrontos internos tornaram a situação mais frágil. A partir disso, optaram por estancar a perda de homens e munições para consolidar essa frente única.
Foi em razão desse armistício criminoso e pelo vácuo institucional deixado pelo colapso do Estado, que as gangues foram projetadas como atores políticos. Assim, sob a liderança articulada de Jimmy ‘’Barbecue’’ Chérizer, essa coalizão veste uma roupagem contra as elites corruptas e redireciona seu poder de fogo outrora disperso contra a política, para a infraestrutura pública e para o governo haitiano (Berdefy et al., 2026). Em fevereiro de 2024, essa aliança foi reativa, o que representou o início dos ataques coordenados contra aeroportos, prisões e também prédios públicos. Essa coalizão, além de exercer o já dito controle territorial na capital, também mobiliza estruturas hierárquicas consolidadas, incluindo o recrutamento de crianças.
Diante da falências dos modelos de policiamento e também do fracasso da antiga missão internacional para conter a violência, nasce a Força de Supressão de Gangues (GSF). Autorizada pelo Conselho de Segurança da ONU em setembro de 2025, por meio da Resolução 2793, essa coalizão de estilo puramente militar foi concebida por um período inicial de 12 meses com um teto de 5.550 soldados, liderados principalmente pelo Quênia, iniciou seu destacamento no primeiro semestre de 2026 (United Nations, 2026)..
Nessa asfixia institucional, as forças de segurança haitianas também passaram a ser respaldadas pelo suporte tático e logístico privado da Vectus Global, uma empresa militar norte-americana que, operando sob licença de exportação de serviços de defesa dos EUA, e contratada pelo governo haitiano desde março de 2025, viabilizou a criação de uma força-tarefa especializada. A partir desse novo arranjo público-privado, o Estado passou a adotar táticas de guerra urbana, notadamente a execução de ataques com drones armados e explosivos em áreas densamente povoadas da capital.
Conforme dados apontados pela Onu (2026), mais de 10% da população transmutou-se em um fluxo massivo de refugiados e migrantes internacionais. No epicentro dessa distopia urbana, em que o tecido social foi corroído pela barbárie, mulheres e minas também tornaram-se alvos sistemáticos de uma política predatória de violência sexual utilizados pelas gangues como ferramenta de controle territorial. Na mesma medida, houve o fechamento de mais de 1.600 escolas que legaram uma geração de 1,5 milhão de jovens ao desamparo educacional, além de 5,7 milhões de pessoas fadadas à insegurança alimentar crônica.
O país caminha sob um decreto eleitoral que estabelece o início de 207 como o prazo final para a posse de um governo legitimamente eleito, o que faz com que as Nações Unidas, por meio do monitoramento político da BINUH (Escritório Integrado das Nações Unidas no Haiti), criada pelo Conselho de Segurança e do recém-criado Escritório de Apoio (UNSOH) para fornecer suporte logístico à GSF, reforçam que a supressão bélica das facções será inócua caso não esteja acompanhado por um consenso nacional que restaure a governança e os serviços sociais básicos.
Em última análise, a retroalimentação desse ecossistema de violência é garantida por uma complexa infra estrutura transnacional de fluxos financeiros ilícitos e contrabando de armas, conforme mapeado pelo Escritório das Nações Unidas sobre Drogas e Crime (UNODC) em seus relatórios trimestrais ao Conselho de Segurança da ONU (Unodc, 2026). Conforme apontado por Unodc (2026), em razão da porosidade das fronteiras marítimas e terrestres haitianas, somada à fragilização crônica das forças alfandegárias, transformou o país em um hub estratégico para o transbordo de cocaína e cannabis em direção aos mercados norte-americanos e europeus, além de facilitar a infiltração de um arsenal de calibre militar, incluindo fuzis de assalto AK-47, AR-15 e armamentos de grosso calibre, oriundo majoritariamente dos Estados Unidos.
Referências
BERDEFY, Alina-Camille; BRADLEY, Martha M.; CASEY-MASLEN, Stuart; GRAF, Juliette; LLOYDD, Marnie. Haiti’s Gang Violence and the Armed Conflict Threshold: An IHL Analysis. Articles of War, Lieber Institute West Point, 15 maio 2026. Disponível em: https://lieber.westpoint.edu/haitis-gang-violence-armed-conflict-threshold-ihl-analysis/.
DO COUTO PEREIRA, Raphael. Dissolução de Conflito entre comunidades no Haiti. Revista Marítima Brasileira, v. 136, n. 07/09, p. 180-190, 2016.
SEGUY, Franck. A catástrofe de janeiro de 2010, a" e; Internacional Comunitária" e; e a recolonização do Haiti. 2014. Tese de Doutorado. [sn].
SEITENFUS, Ricardo AS. Reconstruir Haití: entre la esperanza y el tridente imperial. 2019.
UNITED NATIONS. UN News. Haiti: gang violence and humanitarian crisis risk regional stability, warns Guterres. New York: UN, [jan. 2026]. Disponível em: https://news.un.org/en/story/2026/01/1166801. Acesso em: 23 jun. 2026.
UNITED NATIONS OFFICE ON DRUGS AND CRIME (UNODC). Explainer: Organized crime and gang violence in Haiti. Vienna: UNODC, [jan. 2026]. Disponível em: https://www.unodc.org/unodc/frontpage/2026/January/explainer_-organized-crime-and-gang-violence-in-haiti.html.
