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Projetos / Observatório de Conflitos / Iêmen

Observatório de Conflitos

Acompanhamento sistemático de conflitos armados e crises geopolíticas em andamento globalmente, pelo NPSeD/UFSC.

27
Conflitos
monitorados
4
Categorias
UCDP · COW
ago/2026
Última
atualização

Iêmen

Localização
Mapa do conflito: Iêmen
Classificação
Guerra Intraestatal
Guerra civil por controle central
Oriente Médio
Status
Ativo
Principais combatentes
Movimento Houthi (Ansar Allah) × forças do governo internacionalmente reconhecido × Conselho de Transição do Sul (STC) e forças separatistas × formações militares rivais e grupos jihadistas

Última atualização ago/2026

O conflito ainda se encontra ativo, com uma nova escalada de tensões advindas da guerra entre Irã e EUA o caracterizando nos últimos meses. Os embates entre Houthis e a coalizão liderada pela Arabia Saudita(oficialmente reconhecida como governo legítimo) continuam acontecendo apesar de esforços para a paz e incidentes com a célula da Al-Qaeda também.

O conflito vem de uma escalada iniciada no segundo semestre de 2025, após a guerra entre Israel e Irã, em que os houthis tiveram envolvimento direto, atacando Israel com mísseis balísticos e drones e com ataques israelenses em retaliação. Alguns casos originados de tensões com Israel envolvendo prisões e julgamentos de membros da ONU foram reportados. Ataques realizados pela Al-Qaeda também foram presentes no segundo semestre. O bloqueio naval imposto pelos Houthis continuou durante o semestre, com diversos ataques a navios comerciais. Também o então ainda existente Conselho de transição do sul (STC, apoiado pelos EAU) fez consideráveis ganhos militares após uma ofensiva e garantiu por um breve período de tempo uma posição de influência considerável na região e aumentando tensões entre a Arabia Saudita e os Emirados Árabes Unidos. Também alguns casos de ataques aéreos controversos por parte dos Estados Unidos e Israel foram reportados.

Já no primeiro semestre de 2026, desenvolvimentos do conflito como a retomada dos territórios capturados pelo STC por parte da coalizão Saudita e a disputada dissolução¹,²,³ do mesmo o marcaram, como também as tensões entre Arabia Saudita e EAU decorridas disso. Também as tensões pré e pós início da guerra entre Irã e EUA intensificaram as tensões e acontecimentos da região. Ataques dos Houthis diretamente contra a Arabia Saudita em retaliação a ataques aéreos contra aeroportos foram reportados e ataques mirando infraestrutura petrolífera e civil partem de ambas as partes desde então. Atualmente um bloqueio marítimo imposto pelos Houthis ocorre, com o mesmo mirando em navios cargueiros pertencentes ao outro, como também constantes ataques entre si.

Histórico

O conflito no Iêmen, iniciado em 2014 e que escalou significativamente em março de 2015, é uma complexa guerra civil com profundas repercussões geopolíticas, transformando um país já pobre em uma catástrofe humanitária. Os principais atores beligerantes são o movimento Houthi - grupo formado por rebeldes pertencentes à minoria muçulmana xiita do país -, também conhecido como Ansar Allah, e a Coalizão liderada pela Arábia Saudita, que intervém em apoio ao governo iemenita reconhecido internacionalmente. Atuando como atores externos regionais, a Arábia Saudita e o Irã são os principais envolvidos na dinâmica do conflito, refletindo sua rivalidade pela hegemonia no Oriente Médio. Outros atores externos relevantes incluem os Emirados Árabes Unidos e os Estados Unidos da América. Geograficamente, o conflito se desenrola principalmente no Iêmen, um país na Península Arábica, com fronteiras com Omã e Arábia Saudita, e com uma posição estratégica próxima ao estreito de Bab el-Mandeb, no Mar Vermelho (Crisis Group, 2024; Edwards, 2024; Nagi, 2024; Paris; Murillo, 2024, Amaral, 2024; Santos, 2020; Pinto, 2022)

O contexto histórico do Iêmen é marcado por fragmentação interna e fraco desenvolvimento econômico, o que propiciou a emergência de diversos grupos não-estatais e uma constante competição por poder e recursos. Fundado em 1990 pela unificação do Iêmen do Norte e do Sul, o país, dependente da exportação de petróleo, é palco de disputas religiosas e políticas. O movimento Houthi, originário da província de Sa’ada, no norte, surgiu na década de 2000 como um protesto local contra a marginalização de sua região e a discriminação dos xiitas Zaydis, que representam 35% a 45% da população. Os Houthis, com raízes no movimento reacionário da Revolução de 1962, opunham-se à influência saudita e ao Wahabismo sunita, adotando um discurso anti-americanista após os eventos de 11 de setembro de 2001. Sob a liderança de Abdul-Malik Al-Houthi, o grupo esteve envolvido em insurgências entre 2004 e 2011, período em que a Arábia Saudita já se via envolvida devido às tentativas de avanço Houthi sobre as fronteiras. A Revolução Iemenita de 2011, parte da Primavera Árabe, levou à saída do presidente Ali Abdullah Saleh, abrindo caminho para uma transição política, que os Houthis usaram para aumentar sua popularidade. Aliados ao ex-presidente Saleh, os Houthis capturaram Sanaa em setembro de 2014 e o palácio presidencial em janeiro de 2015, forçando o presidente Hadi a fugir para Áden. A partir de março de 2015, a Arábia Saudita e sua coalizão, apoiada pelo Conselho de Cooperação do Golfo (CCG), intervieram militarmente contra o Ansar Allah, acusando o Irã de apoio material aos Houthis (Crisis Group, 2024; Edwards, 2024; Nagi, 2024; Paris; Murillo, 2024; Amaral, 2024; Pinto, 2022).

Os interesses dos atores são múltiplos e frequentemente antagônicos. Para a Arábia Saudita, a intervenção visa restaurar o governo internacionalmente reconhecido, conter o avanço Houthi e afastar a influência iraniana do Iêmen, que é vista como uma ameaça à sua segurança de fronteira e aos seus interesses regionais. A Arábia Saudita se projeta como líder regional e protetor da fé sunita, opondo-se a qualquer força que questione sua predominância ou a ordem regional. Para o Irã, o conflito no Iêmen representa uma oportunidade de expandir sua influência no Oriente Médio, desafiar a hegemonia saudita e ocidental na região e estabelecer um aliado estratégico próximo ao estreito de Bab el-Mandeb, que é uma rota marítima crucial. O Irã se apresenta como um líder revisionista e anti-imperialista, apoiando movimentos que buscam alterar o status quo regional. Os Houthis, por sua vez, buscam uma maior participação política na ordem interna do país e o reconhecimento dos direitos de sua comunidade religiosa Zaydi, opondo-se ao governo central e buscando se consolidar como um ator político e militar significativo, aproveitando o sentimento anti-saudita na população iemenita (Crisis Group, 2024; Edwards, 2024; Nagi, 2024; Paris; Murillo, 2024; Pinto, 2022; Rego, 2025).

Os interesses de atores extrarregionais, como os Estados Unidos e o Reino Unido, são igualmente significativos. Historicamente, os EUA e o Reino Unido fornecem apoio crucial à Coalizão Saudita, incluindo armamentos e treinamento. Mais recentemente, o interesse primordial de ambos se voltou para a garantia da segurança e da liberdade de navegação no Mar Vermelho, levando a uma intervenção militar direta contra os Houthis em retaliação aos seus ataques a navios comerciais. Para os Estados Unidos, o conflito também representa um desafio à estabilidade de aliados-chave, como a Arábia Saudita, e um obstáculo em sua política de combate ao terrorismo, especialmente contra a Al-Quaeda na Península Arábica (AQPA). A Organização das Nações Unidas (ONU), por sua vez, tem participado do conflito principalmente por meio de canais diplomáticos, buscando mediar um acordo de paz e propondo um roteiro para a resolução do conflito que permita o fim da intervenção estrangeira. O Conselho de Segurança da ONU adotou a Resolução 2216 em 2015, o que impôs um embargo militar aos Houthis, embora os esforços de paz da organização sejam continuamente frustrados pela escalada da violência. (Crisis Group, 2024; Edwards, 2024; Nagi, 2024; Paris; Murillo, 2024; Pinto, 2022; Rego, 2025).

A atuação dos Houthis expandiu-se consideravelmente a partir de meados de 2016, com ataques a alvos internacionais fora do território iemenita. Entre 2016 e 2022, o grupo realizou ataques a fragatas sauditas e navios emiradenses, além de mísseis e drones que atingiram a Arábia Saudita e os Emirados Árabes Unidos. Um acontecimento de destaque foi o ataque à petrolífera saudita Saudi Aramco em 2019 com drones, que causou uma queda de 5% na produção mundial diária de petróleo e uma alta nos preços da commodity. Em 2020, a aliança Houthi com o ex-presidente Saleh foi desfeita, resultando no assassinato de Saleh pelos Houthis. A partir de outubro de 2023, o conflito no Iêmen inaugurou um novo capítulo com a projeção internacional dos Houthis em apoio à Palestina, realizando ataques a navios de transporte afiliados a Israel que passavam pelo Mar Vermelho. Esses ataques impactaram o comércio internacional e foram retaliados pelos Estados Unidos e Reino Unido com ataques aéreos a posições Houthi no Iêmen. Em junho de 2024, sequestros e desaparecimentos forçados pelos Houthis atingiram seus maiores níveis desde 2015.

O conflito iemenita é classificado como uma guerra híbrida, que combina forças militares convencionais e irregulares, com táticas assimétricas. A guerra no Iêmen é marcada por um cenário de instabilidade extrema, fome e deslocamento massivo de pessoas, sendo considerada uma das maiores crises humanitárias do mundo pela ONU. A intervenção de atores externos, como a Arábia Saudita e o Irã, intensificou o conflito e suas consequências, transformando-o em uma instabilidade regional complexa. (Crisis Group, 2024; Edwards, 2024; Nagi, 2024; Paris; Murillo, 2024; Pinto, 2022; Rego, 2025).

O conflito no Iêmen pode ser caracterizado como uma guerra civil internacionalizada, que se manifesta como uma guerra híbrida. Os Houthis, um ator não-estatal inicialmente insurgente e local, ascenderam a uma força militar e política significativa, controlando áreas estratégicas e demonstrando capacidade de projeção internacional. Sua natureza assimétrica, combinando táticas de guerrilha com armamento sofisticado, é central para a dinâmica do conflito. Os principais atores, os Houthis e a Coalizão Saudita, representam a rivalidade entre o Irã e a Arábia Saudita pela hegemonia regional. O conflito, que começou como uma disputa interna, é amplificado pelos interesses antagônicos e pela instrumentalização de grupos locais por esses poderes regionais. A Arábia Saudita busca restaurar o governo reconhecido e conter a influência iraniana para proteger sua segurança e interesses econômicos, enquanto o Irã visa expandir sua área de influência e desafiar o status quo regional, usando os Houthis como um proxy estratégico. A intervenção externa e o caráter sectário da guerra transformaram o Iêmen em um palco para uma “guerra por procuração”, com consequências devastadoras para a população civil (Crisis Group, 2024; Edwards, 2024; Nagi, 2024; Paris; Murillo, 2024; Pinto, 2022; Rego, 2025; Amaral, 2024).

Referências

EDWARDS, Christian. Quem são os Houthis e por que eles atacam navios no Mar Vermelho?. CNN Brasil, 12 de janeiro de 2024. Internacional. Disponível em: <https://www.cnnbrasil.com.br/internacional/quem-sao-os-houthis-e-por-que-eles-atacam-navios-no-mar-vermelho-2/>. Acesso em: 23 maio 2025.

International Crisis Group. On The Horizon: October 2024-March 2025 | Crisis Group. International Crisis Group. Disponível em: https://www.crisisgroup.org/myanmar-south-china-sea-sudan-yemen/horizon-october-2024-march-2025. Acesso em: 23 maio 2025.

NAGI, A. Yemen. International Crisis Group. Disponível em: <https://www.crisisgroup.org/middle-east-north-africa/gulf-and-arabian-peninsula/yemen>. Acesso em: 23 maio 2025.

PARIS, Christina de; MURILLO, Ciro. Yemen: Mid-year metrics 2024. ACLED, 12 de agosto de 2024. Disponível em: https://acleddata.com/2024/08/12/yemen-mid-year-metrics-2024/. Acesso em: 23 maio 2025.

REGO, João Gabriel Fischer Morais. Ascensão dos houthis no Iêmen e a atuação iraniana: um caso de guerra híbrida. Revista de Geopolítica, Natal, v. 16, n. 1, p. 1-17, mar. 2025. Disponível em: http://www.revistageopolitica.com.br/index.php/revistageopolitica/article/view/583/418. Acesso em: 23 maio 2025.

SANTOS, Mibsan Pereira dos. A BALANÇA DE PODER NA GUERRA CIVIL DO IÊMEN:: a interação entre arábia saudita e irã (2015 a 2020). 2020. 67 f. TCC (Graduação) - Curso de Relações Internacionais, Faculdade Damas da Instrução Cristã, Recife, 2020.

AMARAL, Mariana Jardim de Andrade e. Houthis: origem, ascensão e sustento dos esforços de guerra do grupo. 2024. 24 f. Trabalho de Conclusão de Curso (Graduação em Relações Internacionais) - Universidade Federal de Uberlândia, Uberlândia, 2024. Disponível em: https://repositorio.ufu.br/handle/123456789/44452 Acesso em: 23 maio 2025.

PINTO, Pedro Miguel Nunes. Conflito no Iémen: A Expansão do Controlo dos Houthis e as Repercussões Geopolíticas para o Médio Oriente.: as relações entre a Arábia Saudita e o Irão (2015-2021).. 2022. 71 f. Dissertação (Mestrado) - Curso de Relações Internacionais, Universidade de Lisboa, Lisboa, 2022. Disponível em: https://repositorio.ulisboa.pt/bitstream/10400.5/27283/2/Disserta%c3%a7%c3%a3o%20-%20Pedro%20Pinto.pdf. Acesso em: 23 maio 2025.

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