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Projetos / Observatório de Conflitos / Irã e Israel

Observatório de Conflitos

Acompanhamento sistemático de conflitos armados e crises geopolíticas em andamento globalmente, pelo NPSeD/UFSC.

27
Conflitos
monitorados
4
Categorias
UCDP · COW
ago/2026
Última
atualização

Irã e Israel

Localização
Mapa do conflito: Irã e Israel
Classificação
Guerra Interestatal
Oriente Médio
Status
Ativo
Principais combatentes
Forças armadas do Irã e Israel × grupos paramilitares

Última atualização ago/2026

Teerã mantém a retórica de que os Estados Unidos estão “implorando” por uma saída honrosa da região, enquanto o governo Trump confirmou que não há novas rodadas de negociações planejadas após o fracasso das conversas anteriores. No campo de batalha, as forças israelenses intensificaram operações na Síria, realizando ataques contra bases aéreas pouco depois da visita de uma delegação turca, visando desarticular a logística iraniana no país.

A pressão sobre o regime iraniano aumentou drasticamente com a decisão dos Emirados Árabes Unidos de suspender todo o comércio e transações financeiras com o país, justificando a medida após ataques de mísseis iranianos contra seu território e águas territoriais.

No aspecto humanitário e de governança militar, o exército de Israel anunciou a abertura de suas primeiras investigações criminais sobre a conduta de tropas em Gaza, especificamente nos casos da morte da menina Hind Rajab e de paramédicos palestinos. Enquanto isso, aliados do Irã, como os rebeldes Houthis, alegam ter bloqueado a passagem de 48 navios petrolíferos sauditas desde o final de julho, reforçando o uso do estrangulamento energético como arma estratégica na região.

Histórico

O conflito direto entre Irã e Israel está ativo desde 2024, todavia as tensões político-ideológicas permeiam o relacionamento dos países especialmente desde a Revolução Iraniana, em 1979. O confronto se desenrola geograficamente em seus respectivos territórios e em outros países do Oriente Médio (Síria, Líbano, Iraque, Palestina, Iêmen) por meio de guerras de procuração, contínuas por décadas antes do enfrentamento direto Irã-Israel. Nesse sentido, apesar dos principais atores beligerantes serem os Estados do Irã e de Israel, atores secundários são agregados historicamente ao conflito, como os grupos paramilitares xiitas auxiliados pelo Irã como o Hezbollah, Hamas, Houthis e entre outros. Além das guerras de procuração, a hostilidade também perpassa a questão nuclear, a qual agrega os Estados Unidos como principal ator secundário.

As relações entre os persas e os judeus tiveram seu início por volta de 720 a.C., quando comunidades judaicas povoaram Média (atual noroeste do Irã) após a conquista do Reino de Israel pelos Assírios e, desde então, seu relacionamento é perpassado por tensões periódicas. A criação do Estado de Israel, em 1948, coincidiu com o período em que a dinastia Pahlavi dirigiu o Irã (governo marcado pelo secularismo e alinhamento ao ocidente), o que originou uma conjuntura propícia para que seus interesses geopolíticos particulares e mútuos se transformassem em alianças estratégicas. O Irã, visando sua projeção como líder regional no Oriente Médio, enxergava a proximidade com Israel como uma via de acesso aos Estados Unidos, considerando a grande capacidade de influência e lobby do primeiro sobre o segundo. Israel, por sua vez, buscando sua consolidação como Estado-Nação no território majoritariamente árabe, entendia a cooperação com o Irã como peça chave da sua Doutrina da Periferia, pautada na noção de que era necessário para o país estabelecer relações estreitas com os países não-árabes da região a fim de preservar sua segurança. Para além das motivações individuais, a cooperação também derivou do medo partilhado da expansão do radicalismo islâmico e do comunismo soviético na região.

Tendo isso em vista, apesar do Irã ter votado contra a divisão da Palestina para a criação do Estado judeu na Resolução 181 da Assembleia Geral das Nações Unidas (1947) e à sua filação à ONU (1949), esse foi também o primeiro país da região a estabelecer relações diplomáticas com Israel, em 1950. Sob o jugo Pahlavi, Irã e Israel logo estabeleceram cooperação nos setores militar, econômico e de inteligência, através do qual o primeiro atuou como principal fornecedor de petróleo para o segundo, em troca de armas e tecnologia militar. As políticas iranianas pró-Israel geraram grande oposição da comunidade islâmica doméstica e dos países árabes, que demandavam o corte de relações afim de resolver a questão Palestina. Paralelamente, enquanto o país persa conciliava essas pressões com seus interesses políticos, seu programa nuclear de crescimento extensivo se materializou, com o apoio dos EUA e de países europeus, em 1967.

Todavia, as tensões crescentes entre os países emergiram após a Revolução Iraniana de 1979, derivada da insatisfação popular com o caráter ditatorial e as políticas de ocidentalização do prévio regime. As revoltas populares levaram à destituição da dinastia Pahlavi e à conquista do poder pelos aiatolás xiitas (ainda em vigor em 2025), que romperam seus laços com as potências ocidentais (especialmente EUA) e assumiram uma postura anti-sionista, no qual a prévia amizade foi convertida em uma forte oposição ideológica e política. O novo regime iraniano visou o pan-islamismo e a solidariedade ao povo palestino e, de imediato, definiu Israel como um Estado ilegal, impôs sanções econômicas, deixou de reconhecer a validade dos passaportes israelenses e cedeu a embaixada de Israel em Teerã para a Organização para a Libertação da Palestina. Apesar disso, a cooperação não foi cessada imediatamente. Durante a Guerra Irã-Iraque (1980-1988), Israel forneceu armamentos ao Irã para o combate do regime de Saddam Hussein, encarado por ambos os países como uma ameaça aos seus interesses nacionais mais séria do que um ao outro. O fim da guerra acompanhou, no entanto, o fortalecimento do programa militar iraniano com apoio da China e da Rússia, o que Israel entendeu como uma ameaça securitária.

Desde então, a divergência ideológica-identitária alicerçou agressões indiretas de motivações políticas e estratégicas. A hostilidade entre os países passou a se expressar através dos métodos iranianos de ampliar sua influência e poder regionais e a busca por um equilíbrio de poder nuclear, monopolizado por Israel, que empenhou-se em combatê-la com apoio dos EUA. O conflito Irã-Israel se manifestou em forma indireta por meio de guerras de procuração por décadas em várias partes do Oriente Médio, em razão do auxílio iraniano a grupos paramilitares xiitas que continuamente entraram em confronto direto com Israel. O amparo é fornecido diretamente pela Força Quds, unidade militar estatal iraniana, a grupos como o Hezbollah (Líbano), Hamas (Faixa de Gaza), Houthis (Iêmen) e demais atores em países como Síria e Iraque. A manifestação das guerras de procuração foi, portanto, instrumental para que o Irã evitasse o conflito direto com Israel enquanto ampliava sua influência geográfica.

Paralelamente, o potencial desenvolvimento de armas nucleares em razão da continuidade do programa nuclear iraniano induziu Israel a considerá-lo como principal ameaça à sua segurança nacional. Apesar do Irã afirmar que o seu programa tem apenas propósitos pacíficos, Israel, EUA e outros países ocidentais não deixaram de suspeitar de um possível desenvolvimento bélico, o que encaminhou o Plano de Ação Conjunto Global (2015). Esse previu a redução do estoque iraniano de urânio enriquecido em 98%, mas não a abolição de produção de outros materiais bélicos, como mísseis balísticos, o que levou os EUA a se retirar do acordo dois anos depois e assumir uma postura de maior hostilidade com o Irã. Isso se traduziu na classificação oficial do Irã como maior patrocinador estatal do terrorismo e a Força Quds como uma organização terrorista, visto seu apoio aos grupos não-estatais que entram em confronto direto com Israel. O Irã, por sua vez, infringiu também seu compromisso com o Plano, elevando sua tensão com o Estado judeu.

A eclosão do conflito direto ocorreu em abril de 2024, quando um alto comandante da Força Quds, Mohamed Reza Zahedi, foi assassinado no consulado iraniano em Damasco por um ataque atribuído ao Estado de Israel. O Irã retaliou o ataque, e Israel respondeu com um ataque de mísseis a uma rede de radar próxima a uma instalação nuclear. Já em junho de 2025, Israel lançou uma série de ataques diretamente a instalações nucleares iranianas. O conflito está ativo desde então, tomando uma dimensão interestatal e direta pela primeira vez, já que, apesar da utilização de guerras de procuração através do fortalecimento dos grupos paramilitares xiitas, o ano de 2024 data a primeira vez que Israel foi alvo de violência direta do Irã.

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