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Projetos / Observatório de Conflitos / Iraque

Observatório de Conflitos

Acompanhamento sistemático de conflitos armados e crises geopolíticas em andamento globalmente, pelo NPSeD/UFSC.

27
Conflitos
monitorados
4
Categorias
UCDP · COW
ago/2026
Última
atualização

Iraque

Localização
Mapa do conflito: Iraque
Classificação
Guerra Intraestatal
Guerra civil por questões locais
Oriente Médio
Status
Ativo
Principais combatentes
Forças de segurança iraquianas × Estado Islâmico (ISIS) × milícias das Forças de Mobilização Popular (PMF) × grupos armados curdos e forças da Região do Curdistão

Última atualização ago/2026

O Iraque permanece fragilizado politicamente, com a estabilidade institucional do país agora ameaçada pelos conflitos entre EUA, Israel e aliados Árabes contra o Irã, com os Estados Unidos atacando grupos ligados ao Irã em território iraquiano, e o Irã também lançando ataques a partir do Iraque, incluindo ações de Houthis iemenitas contra a Arábia Saudita. Ademais, o país sofre um agravamento da crise econômica, em virtude da situação no Estreito de Hormuz, que prejudicou o escoamento de petróleo das refinarias iraquianas. Dessa maneira, com o País no meio de um conflito regional, o Governo de Ali al-Zaidi, eleito ao final de 2025, sofre constantes pressões dos EUA, que acusam o Irã como o principal fomentador da instabilidade política iraquiana. Dessa maneira, em julho de 2026, Zaidi realizou uma visita aos EUA para negociar parcerias econômicas, acordos de investimentos e abertura de novas rotas de exportação de petróleo. Por fim, a eleição de al-Zaidi foi resultado de pressões políticas tanto das classes políticas tradicionais xiitas iraquianas, quanto de pressões externas de Irã e EUA, que culminou na escolha de um candidato que agradasse tanto Teerã quanto Washington em meio ao conflito entre os dois países, visto que al-Zaidi é um político com relações com as elites xiitas do país mas que não pertence à facções apoiadas diretamente pelo Irã.

Histórico

A República do Iraque enfrenta persistentes instabilidades políticas e institucionais, agravadas por frequentes intervenções estrangeiras — especialmente dos Estados Unidos e do Irã — e pelas consequências humanitárias de décadas de conflitos sectários com raízes históricas profundas. As guerras contra potências estrangeiras e a atuação de grupos terroristas, como a Al-Qaeda e, sobretudo, o Estado Islâmico, acentuaram a fragilidade do país. Nesse contexto, o Iraque busca se reconstruir enquanto enfrenta desafios econômicos, políticos e sociais, além de lidar com uma identidade nacional fragmentada, resultado tanto dos sucessivos conflitos quanto do próprio processo de formação do Estado iraquiano.

O território que hoje corresponde ao Iraque era parte de três províncias do Império Otomano os quais, após a derrota Otomana na Primeira Guerra Mundial, tornaram-se protetorados Britânicos como resultado do Acordo Sykes-Picot assinado entre o Reino Unido e a França, que dividia os territórios do Oriente Médio entre ambos. Dessa maneira, as fronteiras artificiais do Protetorado Britânico do Iraque, que se tornaria um país independente em 1932 com a proclamação do Reino Hashemita, continham diversas populações distintas, como os Sunitas árabes ao noroeste, Curdos ao nordeste e uma maioria Xiita árabe ao sul (UCDP, 2024). Além disso, a ascensão ao poder do Partido Ba’ath, após um Golpe de Estado na década de 1960, consolidou a predominância política de uma elite governante Árabe-Sunita que, a partir de políticas que favoreciam os interesses desta elite e diversas ações autoritárias de supressão à dissidentes, resultaram em uma hierarquia sociopolítica no país, que alienava politicamente os árabes xiitas. Ademais, as políticas de “Arabização” do Estado implementadas pelo Ba’ath incentivaram os Curdos a buscarem maior autonomia política e fortalecerem sua própria identidade cultural (Al-Qarawee, 2013, 2014). Assim, o legado colonial da constituição do Estado Iraquiano, junto ao fracasso do processo de construção de uma identidade nacional unificada contribuiu para a formação de tensões sectárias que resultariam em violentos conflitos nos anos 2000.

Somado a isso, em 1979 Saddam Hussein, membro proeminente do Ba’ath, assumiu o poder no Iraque e, durante o seu governo (1979-2003), o Iraque buscou afirmar-se como potência regional e liderança no mundo árabe. Assim, 1980, em meio a desavenças quanto às demarcações fronteiriças no rio Shat Al-Arab, lançou uma invasão ao Irã, iniciando uma guerra devastadora que duraria oito anos, e que, sem um vencedor claro, gerou profundos impactos econômicos e sociais que marcaram a relação entre ambos os países (Seloom, 2024). Já em 1990, Saddam envolveria o Iraque em mais uma guerra interestatal, dessa vez contra uma Coalizão Internacional liderada pelos Estados Unidos, no que ficaria conhecido como Guerra do Golfo, que iniciou após o Iraque invadir e ocupar o Kuwait com o objetivo principal de adquirir suas amplas reservas de petróleo. A Coalizão Internacional, sancionada pelo Conselho de Segurança da ONU, derrotaria militarmente o Iraque em 1991, resultando em um acordo de paz no qual o Iraque reconheceria a soberania do Kuwait e despojaria suas de destruição em massa (armas químicas e biológicas haviam sido usadas na guerra contra o Irã), com o cumprimento do Acordo sendo garantido por inspetores designados da ONU após o conflito (Britannica, 2025).

Entretanto, o principal ponto de inflexão da história iraquiana, e que seria o catalisador de muitos dos problemas que o país enfrentaria pelas décadas seguintes, foi a controversa Invasão do Iraque de 2003, culminando na derrubada do governo de Saddam Hussein. Liderada pelos Estados Unidos com o apoio, em especial, do Reino Unido, Austrália e de outros países da Força Multinacional. No entanto, diferentemente do que ocorreu na década de 90, esta ação não foi autorizada pela ONU, refletindo o caráter controverso da invasão. As justificativas, e as causas que levaram ao conflito são até hoje debatidas, com a narrativa principal inicialmente centrada na acusação das forças multinacionais de que o Iraque ainda possuía armas de destruição em massa, algo que nunca foi comprovado, nem mesmo pelas inspeções da ONU após a Guerra do Golfo, nem pelas buscas do ISG (Iraqi Survey Group), uma missão montada pela Coalizão em 2004, após o início da invasão. Além disso, o conflito iniciou-se no auge da Guerra ao Terror, após os ataques de 11 de setembro de 2001, e acusações também nunca comprovadas de ligações de Saddam Hussein com a Al-Qaeda também foram instrumentalizadas para fortalecer a narrativa para a invasão. Por último, a derrubada de Saddam Hussein e a transição do Iraque para um regime democrático era objetivo explícito da política externa norte-americana desde 1998, quando o Congresso aprovou o Ato de Libertação do Iraque, que autorizava o Presidente dos EUA prover apoio às organizações democráticas iraquianas que se opunham ao regime autoritário do Ba’ath (Al-Jazeera, 2023; Congress, 1998; UCDP, 2024).

Assim, a invasão foi bem-sucedida, com o Exército Iraquiano sendo rapidamente debandado e o governo Sunita do Ba’ath sendo derrubado em pouco mais de um mês, e substituído por um Governo Interino de maioria Xiita, com apoio dos Estados Unidos. Saddam seria capturado em 2004 e julgado e executado em 2006. Após a queda do Ba’ath e o vácuo de poder deixado por Saddam, houve o rápido crescimento das ações de insurgência contra as forças internacionais no Iraque, primeiramente com grupos insurgentes Sunitas, que operavam na região do Triângulo Sunita, no qual estavam as cidades de Bagdá, Ramadi e Fallujah (aqui ocorreram as maiores batalhas do conflito) - região esta que era a principal base de apoio do governo Ba’ath, com muitos altos membros do regime e oficiais militares, incluindo o próprio Saddam, sendo desta região. As milícias eram, portanto, inicialmente formadas por grupos leais à Saddam. Entre as principais causas para o crescimento das ações de insurgência, estavam: a demora da Coalizão em prover esforços de ajuda humanitária e reconstrução da infraestrutura iraquiana, e o processo de desbaathificação implementado no país, que contribuiu para um senso de alienação da comunidade sunita. Posteriormente, a insatisfação com a presença estrangeira começou a aumentar nos grupos xiitas da sociedade, por muitas das mesmas razões citadas anteriormente, mas especialmente incentivada pelo clérigo Muqtada al-Sadr, que se opunha fortemente a qualquer presença estrangeira no Iraque, e que apoiaria a formação do exército de Al-Mahdi, o qual se tornaria a principal milícia xiita no conflito. Dessa forma, a eclosão de insurgências por todo o país, e o crescimento de grupos armados sunitas e xiitas resultariam em um contexto favorável para a eclosão de violentos conflitos sectários entre 2006 e 2008, período referido como a Guerra Civil no Iraque, bem como facilitariam a emergência de grupos extremista no país, como a Al-Qaeda, a qual posteriormente daria origem ao Estado Islâmico (ISIS) (Al Qarawee, 2014; Britannica, 2025; Center for Preventive Action, 2024; UCDP, 2024).

A intensificação dos conflitos sectários no Iraque a partir de 2006 resultou em graves crises humanitárias, com o ACNUR estimando 4,7 milhões de refugiados iraquianos já em 2006 (Stort; Redmond, 2006). Como resposta à crescente violência e instabilidade política, em 2007 ocorreu o “The Surge”, um drástico aumento do número de tropas norte-americanas no país, bem como a implementação do chamado “Despertar Sunita”, no qual milícias tribais sunitas foram financiadas pelos Estados Unidos com objetivo de garantir a ordem e a segurança nas comunidades sunitas, bem como auxiliar no combate à Al-Qaeda. A combinação destas ações contribuiu para a diminuição temporária da violência sectária no país, mas também geraria consequências graves quando os governos iraquianos nos anos seguintes falharam em atender às demandas das tropas do Despertar Sunita para a integração destas com as Forças de Segurança do Iraque, o que resultou na debandada das tropas e a deserção de muitas delas para o Estado Islâmico, que tinha atuação crescente no país desde 2006 (Center for Preventive Action, 2024; UCDP, 2024). Além disso, com a eleição de Barack Obama em 2008, os EUA iniciaram um amplo processo de retirada, cumprindo um acordo assinado com o governo iraquiano naquele ano, ainda no mandato de George W Bush. A opinião pública estadunidense já pressionava pelo fim da guerra, devido aos altos custos humanos e financeiros, e o governo iraquiano também insistia na retirada completa, não permitindo nem mesmo a presença de uma força de treinamento no país. Dessa forma, a retirada foi concluída em 2011, com o Iraque permanecendo um país instável e violento, agora vulnerável ao crescimento do Estado Islâmico que, após anos se fortalecendo, lançaria uma ampla ofensiva no país em 2014 (Center for Preventive Action, 2024; Doherty; Kiley, 2023; UCDP, 2024).

A ofensiva do Estado Islâmico contra o Iraque foi lançada a partir da Síria, com o grupo conquistando diversas cidades ao oeste do país. Esta situação provou o retorno das tropas norte-americanas ao país, especialmente a partir de 2017 com Donald Trump na presidência. Após um violento conflito, o Iraque declararia vitória militar sobre o Estado Islâmico no final de 2017, entretanto, o grupo terrorista ainda realiza ataques e ações de insurgência no país. Um pequeno contingente estadunidense também permanece no Iraque sob a justificativa de auxiliar no combate aos remanescentes do Estado Islâmico, apesar de acordos para uma retirada gradual estarem em andamento (Al Jazeera, 2025; Center for Preventive Action, 2024). Ademais, outra crise surgiu quando em 2017 os Curdos tentaram realizar um referendo de independência, resultando em uma forte repressão militar por parte do governo iraquiano (Center for Preventive Action, 2024).

Além do mais, o Iraque também está sob forte influência do Irã em sua política doméstica, especialmente após a queda de Saddam Hussein, com o Irã visando apoiar a ascensão de um governo iraquiano alinhando com seus interesses geopolíticos e econômicos na região, bem como evitar um novo conflito com o Iraque, semelhante ao que ocorreu na década de 80 (Robinson, 2022; Seloom, 2024). Dessa maneira, em 2021 ocorreu uma tensa crise política no país, que envolveu a tentativa de assassinato do então Primeiro-Ministro do Iraque, Mustafa al-Khadimi, o qual era apoiado politicamente pelo clérigo Muqtada al-Sadr, que já havia lutado contra a presença norte-americana, e agora era forte crítico da influência iraniana no Iraque. Como resultado desta crise, os políticos apoiados por al-Sadr renunciaram na tentativa de pressionar o Governo a eleger um novo presidente, mas isso apenas facilitou para que fossem substituídos por políticos xiitas apoiados pelo Irã. Em 2023, uma nova crise política ocorreu com a alteração dos Distritos Eleitorais iraquianos, o que diminuiria a chance de partidos menores e políticos independentes de serem eleitos. Além disso, como resposta à guerra entre Israel e Hamas, as milícias apoiadas pelo Irã passaram a atacar bases norte-americanas por todo o Iraque, e a violência contra os Curdos ao norte continua, inclusive com ataques da Turquia às comunidades Curdas (Center for Preventive Action, 2024).

Portanto, o Iraque permanece em uma situação complexa de instabilidades políticas e violência, envolvido nas disputas geopolíticas do Oriente Médio, o desafiando a equilibrar a continuada presença estadunidense no país com a crescente influência política iraniana.

Referências

ALJAZEERA. How the US and UK tried to justify the invasion of Iraq. AlJazeera, 2023. Disponível em: https://www.aljazeera.com/news/2023/3/19/examining-justifications-us-invasion-iraq. Acesso em 27 set. 2025

AL-QARAWEE, Harith. Iraq’s Sectarian Crisis A Legacy Of Exclusion. Carnegie Middle East Center, 2014. Disponível em: https://www.jstor.org/stable/pdf/resrep12876.pdf?acceptTC=true&coverpage=false&addFooter=false. Acesso em 30 set. 2025

AL-QARAWEE, Harith. Sectarian Relations And Socio‐Political Conflict In Iraq. ISPI, 2013. Disponível em: https://www.researchgate.net/profile/Harith-Hasan/publication/280099809_Sectarian_Relations_and_Socio-Political_Conflict_in_Iraq/links/55a9315a08ae815a0425406e/Sectarian-Relations-and-Socio-Political-Conflict-in-Iraq.pdf. Acesso em 29 set. 2025

BRITANNICA. History of Iraq. Britannica, 2025. Disponível em: https://www.britannica.com/place/Iraq/History. Acesso em 23 set. 2025

CENTER for Preventive Action. Instability in Iraq. Council on Foreign Relations, 2024. Disponível em: https://www.cfr.org/global-conflict-tracker/conflict/political-instability-iraq. Acesso em: 23 set. 2025

DOHERTY, Carroll; KILEY, Jocelyn. A Look Back at How Fear and False Beliefs Bolstered U.S. Public Support for War in Iraq. Pew Research Center, 2023. Disponível em: https://www.pewresearch.org/politics/2023/03/14/a-look-back-at-how-fear-and-false-beliefs-bolstered-u-s-public-support-for-war-in-iraq/. Acesso em: 6 out. 2025

ESTADOS UNIDOS, Congress House. H.R.4655 - Iraq Liberation Act of 1998. Estados Unidos, 1998. Disponível em: https://www.congress.gov/bill/105th-congress/house-bill/4655. Acesso em 27 set. 2025

ROBINSON, Kali. How Much Influence Does Iran Have in Iraq? Council on Foreign Relations, 2022. Disponível em: https://www.cfr.org/articles/how-much-influence-does-iran-have-iraq. Acesso em 8 out. 2025

SELOOM, Muhanad. From Rivals to Allies: Iran’s Evolving Role in Iraq’s Geopolitics. Middle East Council on Foreign Affairs, 2024. Disponível em: https://mecouncil.org/publication_chapters/from-rivals-to-allies-irans-evolving-role-in-iraqs-geopolitics/. Acesso em 8 out. 2025

STORT, Astrid; REDMOND, Ron. UNHCR worried about effect of dire security situation on Iraq’s displaced. UNHCR, 2006. Disponível em: https://www.unhcr.org/news/stories/unhcr-worried-about-effect-dire-security-situation-iraqs-displaced. Acesso em 5 out. 2025

UPPSALA Conflict Data Program. Country – Iraq. UCDP, 2025. Disponível em: https://ucdp.uu.se/conflict/11345. Acesso em 25 set. 2025.

UPPSALA Conflict Data Program. Conflict – Iraq: Government. UCDP, 2025. Disponível em: https://ucdp.uu.se/conflict/11345. Acesso em 25 set. 2025.

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