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Projetos / Observatório de Conflitos / Israel e Palestina

Observatório de Conflitos

Acompanhamento sistemático de conflitos armados e crises geopolíticas em andamento globalmente, pelo NPSeD/UFSC.

27
Conflitos
monitorados
4
Categorias
UCDP · COW
ago/2026
Última
atualização

Israel e Palestina

Localização
Mapa do conflito: Israel e Palestina
Classificação
Guerra Extraestatal
Oriente Médio · Faixa de Gaza
Status
Ativo
Principais combatentes
Forças de Defesa de Israel (FDI) × Hamas e suas Brigadas Izz ad-Din al-Qassam × Jihad Islâmica Palestina e suas Brigadas al-Quds × outros grupos armados palestinos

Última atualização ago/2026

Mais de dois anos depois do início da guerra em Gaza, o cessar-fogo negociado em outubro de 2025 sustenta um certo nível de paz, mas está longe de significar o fim do conflito. Embora todos os reféns vivos tenham sido devolvidos, pontos centrais do plano de Trump - o desarmamento do Hamas, a formação de um governo tecnocrático para Gaza e a composição de uma força internacional de estabilização - seguem sem solução, num impasse que já custou cerca de 1.250 vidas palestinas desde a trégua, incluindo dois ataques aéreos que romperam mais de uma semana sem mortes registradas em Khan Younis e Gaza City em agosto de 2026.

Enquanto a atenção internacional permanece voltada a Gaza, a Cisjordânia vive uma escalada paralela e, para organizações como a Organização das Nações Unidas (ONU) e a Anistia Internacional, cada vez mais sistemática: em Qusra, colonos judeus cercaram famílias palestinas, cortando água e eletricidade antes que tropas israelenses ocupassem posições dentro das próprias casas cercadas - episódio que a ONU descreveu como um “estado de terror”. Esse episódio não é isolado: foram documentados mais de 1.330 ataques de colonos desde o início de 2026, enquadrado-os como parte de uma política coordenada com o exército israelense e respaldada por ministros do governo Netanyahu.

Histórico

As tensões entre israelenses e palestinos não são hodiernas, mas sim uma relação complexa e desafiadora que estende-se há mais de 75 anos no cenário internacional, uma intensa e violenta rivalidade entre judeus e árabes pelo controle e disputa em torno do território palestino. Nos termos de Said (2012), é argumentado que o conflito é iniciado, sobretudo, pela experiência política e a consciência nacional emergida formalmente com a chegada da primeira onda de colonos sionistas no início da década de 1880, o que iniciou um confronto fundamental entre a presença física nativa e uma ideologia de povoamento.

Contudo, a partir da Declaração de Balfour, em novembro de 1917, que a consolidação político-jurídica desse processo ganhou forma, declaração essa na qual o governo britânico se comprometeu a favorecer o estabelecimento de uma pátria para o povo judeu na Palestina (Said, 2012). Nessa conjuntura, houve de fato, uma intervenção colonial sobre um território não europeu, prometendo também essa mesma terra a um grupo estrrangeiro. Assim, a declaração consagrou a lógica imperialista em que uma interpretação política estrangeira se sobrepôs e apagou a presença física da população que já habitava o território há séculos.

Nessa conjuntura, o papel da Organização das Nações Unidas foi decisivo para a consolidação institucional do Estado de Israel por meio do Plano de Partição de 1947. Ao ser aprovado a divisão da Palestina, a ONU chancelou internacionalmente a criação de um Estado judeu sobre um território em que a população nativa árabe ainda constituía a ampla maioria demográfica. Por meio disso, Said (2012) explica que as áreas sob posse sionista, equivaliam apenas cerca de 6,5% das terras no fim de 1947, dando continuidade assim à lógica colonial de dispor de um território não europeu.

Já a dinâmica territorial sofreu uma transformação profunda com a Guera dos Seis Dias em 1967, quando o estado judaico de Israel ocupou militarmente a Cisjordânia, a Faixa de Gaza e Jerusalém Oriental. Ainda, nas décadas seguintes o aprofundamento da ocupação militar e a expansão contínua dos assentamentos judaicos alteraram drasticamente o tecido social e geográfico nativo, culminando na eclosão da Primeira Intifada em 1987, contexto no qual também emergiu o movimento Hamas (Khalid, 2024). Embora os Acordos de Oslo nos anos 1990 tenham estabelecido a Autoridade Nacional Palestina (ANP) e delineado uma estrutura provisória de autogoverno (Khalid, 2024), o colapso das negociações diplomáticas e a continuidade do controle territorial israelense levaram ao desencadeamento da Segunda Intifada em 2000.

O cenário político palestino fragmentou-se decisivamente após a vitória eleitoral do Hamas em 2006 e a subsequente cisão política de 2007, que deixou a Faixa de Gaza sob a administração do Hamas e a Cisjordânia sob a Autoridade Palestina. Desse modo, em resposta, Israel impôs um rigoroso bloqueio à Faixa de Gaza, convertendo o enclave em uma estrutura isolada e desencadeando sucessivos ciclos de operações e confrontos militares. Essa paralisia diplomática prolongada, somada ao cerne do bloqueio em Gaza e à anexação rastejante de terras na Cisjordânia, consolidou um estado de permanente instabilidade que acabou resultando na grande conflagração recente iniciada pelo ataque do Hamas e no aprofundamento da crise contemporânea.

É nesse contexto que contemporaneamente, o conflito retomado em escala de alto nível e proporação entre os dois lados, até chegar ao ponto de inflexão em 7 de outubro de 2023, em que houveram ataques realizados pelo grupo islâmico Hamas, na faixa de Gaza, sul do estado judaico de Israel. Além do grupo Hamas, há outros atores internos e externos que são significativamente importantes e que atuam na dinâmica do conflito, a mencionar como destaque: Estados Unidos, Irã, Arábia Saudita, Hamas e Hezbollah. No caso do Irã e do Hezbollah libaês (islâmico), desde 1979 a Palestina recebe o apoio político do país e desde que foi criado o Hamas, em 1987, o Irã embora xiita, apoia o grupo de forma política e militar contra Israel. Aos atores também cabe destacar as facções que representam o lado palestino. Já o Hamas, é caracterizado por ser um grupo político com fins de libertação da Palestina e com viés religioso-militar sunita e defende em sua carta de 1988 que a solução para a questão palestina passa pela jihad e pela dissolução de Israel.

Nesse princípio, o Hamas rivaliza com a ANP e com o Fatah, e os dois grupos supracitados controlam a Faixa de Gaza e a Cisjordânia, de forma respectiva. No contexto da análise é fato consumado que o estado de Israel possui um poderoso exército e é um dos mais avançados em tecnologia no mundo, o que gera dúvidas acerca da surpresa e falha de proteção ao ataque terrorista sofrido na época, e acreditava-se que o ataque poderia afetar o cenário doméstico do Estado, comparado a direita radical atual do governo de Benjamin Netanyahu. Entretanto, não se pode confundir a solidariedade e a defesa para com os palestinos com o apoio ao grupo terrorista Hamas, que, desde o golpe e tomada de poder na faixa de Gaza pós-2005, administra e impacta a estrutura política e econômica local, assim como a vida da população palestina. Por mais que se pensasse que, após as mediações do Egito e Qatar, baseada em uma proposta de cessar-fogo de múltiplos estágios, com libertação limitada de reféns e retiradas de tropas israelenses (AP News, 2024).

Nessa conjuntura, o Irã é um importante ator revisionista regional e que financia grupos internos na Palestina, como Hamas, a fim de impactar a geopolítica da região, desestabilizando e enfraquecendo a diplomacia israelense, além do fato que os Estados Unidos, Israel e Arábia Saudita aproximam-se do Estado, o que impactaria na totalidade do complexo regional de segurança no Golfo Pérsico. Nesse cenário, Karim Khan, procurador do TPI alegou que seu gabinete recebeu denúncia de África do Sul, Bangladesh, Bolívia, Comores e Djibouti para investigar as possibilidades de crimes nos territórios palestinos no conflito desde outubro de 2023, e a África do Sul apresentou uma denúncia contra Israel a CIJ por violação da Convenção contra o Genocidio de 1948.

Ainda, o desencadeamento da campanha militar israelense que, segundo o Ministério da Saúde de Gaza, havia matado 73.910 palestinos e 174.914 feridos até setembro de 2026 (Palestine Information Center, 2026). Algumas pesquisas independentes, como a pesquisa domiciliar publicada na The Lancet Global Health calculou cerca de 75.200 mortes violentas até janeiro de 2025 (Gaza, 2026). Em termos diplomáticos, em setembro de 2025 foi apresentado pelos Estados Unidos um plano com 20 pontos, que na época, sustentou o cessar-fogo de 10 de outubro (Al Jazeera, 2025). Esse plano foi endossado pela Resolução 2803 do Conselho de Segurança e aprovado com 13 votos favoráveis e abstenções da China e Rússia e criou o Board of Peace, que autorizou uma Força Internacional de Estabilização (Onu, 2025).

Todavia, a implementação continua frágil, tendo em vista que a segunda fase, anunciada em janeiro de 2026, está paralisada, pois o comitê tecnocrático palestino não obteve autorização para entrar em Gaza e, em agosto, Netanyahu rejeitou qualquer retirada antes do desarmamento do Hamas (Gisha, 2026). Desde o início dessa trégua, cerca de 1.930 palestinos já foram mortos (Palestine Information Center, 2026), e em fevereiro de 2026, Estados Unidos e Israel, que possuem sobretudo um apoio em função do respaldo doméstico à segurança israelense, dos objetivos estratégicos compartilhados no Oriente Médio do apoio à criação do estado judaico de Israel em 1948 (Sharp, 2023), iniciaram ataques conjuntos ao Irã. Esses ataques, foram respondidos pelo Irã por ao atingir Israel e as bases americanas na região, além do fechamento do Estreito de Ormuz, enquanto o Hezbollah passou a atacar Israel a partir do Líbano, o que levou a operações terrestres israelenses naquele país.

Ao tratar da materialização dessa relação entre EUA e Israel, é possível destacar a assistência militar contínua em que Israel é o maior beneficiário cumulativo de ajuda externa americana desde a Segunda Guerra Mundial, e o memorando de 2016 prevê 38 bilhões de dólares em ajuda militar entre os anos fiscais de 2019 e 2028, sujeitos à aprovação do Congresso (Sharp, 2026). Algo que Mearsheimer e Walt (2007), definime como lobby pró-Israel na política externa americana, para justificar a amplitude do apoio norte-americano.

Embora tenha ocorrido um cessar-fogo em abril de 2026 e um memorando em junho foi firmado, este documento colapsou semanas depois e, em setembro, o confronto (Eua, Israel, Irã) assumiu feição de guerra de atrito (Congressional Research Service, 2026). Ainda, no plano jurídico, o processo da Áfirca do Sul na CIJ permanece em fase escrita, com réplica prevista para novembro de 2027 e tréplica israelense para maio de 2029 (CIJ, 2026). Já o Tribunal Penal Internacional (TPI) destituiu, em julho de 2026, o procurador Karim Khan, sem efeito imediato sobre os mandados de prisão emitidos em 2024 contra Netanyahu e Gallant (Al Jazeera, 2026). No plano interno, as eleições israelenses, marcadas para 27 de outubro de 2026 (Haaretz, 2026), ocorrem sob a expansão dos assentamentos na Cisjordânia, em que o Ministro da Defesa, Israel Katz, declarou ter sido aprovada a criação de 104 assentamentos desde 2022 (Al Jazeera, 2026).

A partir desse cenário, a guerra em Gaza, iniciada em 2023, aproxima-se da categoria de guerra extraestatal, definida como aquele em que um membro do sistema interestatal combate, fora de suas fronteiras, as forças armadas de um ente que não pertence ao sistema (Sarkees; Wayman, 2010), na medida em que Israel enfrenta o Hamas em um território que não integra seu território reconhecido. Essa mesma tipologia adverte, porém, que um conflito possa mudar de classificação ao longo do tempo (Sarkees, [s.d]), o que fornece explicação para a atualização do conflito em fevereiro de 2026, já que agora, o conflito passou a incluir um confronto entre Estados, de natureza interestatal, que se soma à guerra extraestatal em Gaza e às hostilidades com o Hezbollah no Líbano.

Referências

AP News. Israel intensifica ataques em Gaza enquanto Hamas ameaça reféns. AP News, 18 jul. 2023. Disponível em: https://apnews.com/article/israel-palestinians-gaza-hamas-war-humanitarian-aid-8659eae6e0a7362504f0aa4aa4be53e0. Acesso em: 22 de jul. de 2026.

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GISHA. Gaza Now: facts and figures. [S. l.]: Gisha, 2026. Disponível em: https://gisha.org/en/gaza-now-facts-and-figures/. Acesso em: 03 set. 2026.

HOW many times has Israel violated the Gaza ceasefire? Here are the numbers. Al Jazeera, [s. l.], 11 nov. 2025. Disponível em: https://www.aljazeera.com/news/2025/11/11/how-many-times-has-israel-violated-the-gaza-ceasefire-here-are-the-numbers. Acesso em: 20 set. 2026.

ICC prosecutor Karim Khan removed over ‘political’ sex abuse claims. Al Jazeera, [s. l.], 24 jul. 2026. Disponível em: https://www.aljazeera.com/news/2026/7/24/icc-prosecutor-khan-removed-over-sexual-misconduct-allegations-sources. Acesso em: 20 set. 2026.

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SHARP, Jeremy M. U.S. Foreign Aid to Israel. Washington, DC: Congressional Research Service, 1 mar. 2023. (Report RL33222). Disponível em: https://www.everycrsreport.com/files/2023-03-01_RL33222_7ba4408ea8cf4a56fc01dbcb3d6b1154f8868dc3.html. Acesso em: 12 ago. 2026.

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