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Observatório de Conflitos

Acompanhamento sistemático de conflitos armados e crises geopolíticas em andamento globalmente, pelo NPSeD/UFSC.

27
Conflitos
monitorados
4
Categorias
UCDP · COW
ago/2026
Última
atualização

Mali

Localização
Mapa do conflito: Mali
Classificação
Guerra Intraestatal
Guerra civil por controle central
Sahel
Status
Ativo
Principais combatentes
orças Armadas do Mali e Africa Corps russo × Jama'at Nusrat al-Islam wal-Muslimin (JNIM) × Estado Islâmico no Sahel (ISSP) × Frente de Libertação do Azawad (FLA)

Última atualização ago/2026

Em 2026, continuam as operações de grupos jihadistas e separatistas contra o governo militar, como a ação de 4 de julho, em que a coalizão formada pelo grupo jihadista Jama’at Nusrat al-Islam wal-Muslimin (JNIM) e pela Frente de Libertação do Azawad (FLA) realizou ataques coordenados contra posições militares em diferentes regiões do país, ampliando uma aproximação entre grupos que anteriormente possuíam objetivos distintos. A ofensiva ocorreu após os grandes ataques de abril contra Bamako, Kati e outras localidades, que demonstraram a capacidade dos grupos armados de atingir áreas consideradas estratégicas pelo governo. Em julho, as forças malianas também conseguiram romper um bloqueio imposto por rebeldes à base militar de Anéfis, no norte, embora as alegações sobre baixas e perdas sejam difíceis de verificar. Em agosto, um relatório da ONU apontou que aproximadamente US$ 50 milhões pagos como resgate de um refém em 2025 teriam sido posteriormente utilizados para financiar a ofensiva do JNIM no Sahel, fortalecendo sua capacidade operacional.

Histórico

O Mali, localizado na região do Sahel africano, entre o Deserto do Saara e as terras férteis do Sul, é um país marcado pela multiculturalidade de diferentes povos e clãs que formam a sua identidade nacional. Sendo constituído em sua maioria de muçulmanos, e apresentando uma diversidade étnica1, o Mali é um país marcado pela instabilidade interna, por conflitos interestatais e pela presença de diferentes grupos armados.

Assim, a crise que se instalou no país em 2012 é reflexo da conjuntura crítica do país, no qual a democracia apresenta uma fragilidade em se manter diante das diferentes visões dos seus povos. Contudo, para entender a atual crise, é necessário voltar ao processo de independência do país nos anos 1960, e a atuação do grupo étnico Tuaregues, grupo de cultura nômade pastoril independente, em sua maioria islâmicos, que habitam a região norte do país2.

O primeiro presidente pós-independência, Modibo Keïta (1960-1968) na busca por desenvolver o país, considerava o estilo nômade dos Tuaregues como algo que atrasaria o desenvolvimento do Mali. Eles foram considerados os “les malis inutiles” (os malineses inúteis), e para os Tuaregues esse processo de modernização era visto como uma nova forma de colonização. Sendo assim, fruto da discriminação e marginalização que sofreram, os Tuaregues, entre os anos de 1962 e 1963, conduziram a primeira rebelião no país, que buscava maior integração com o resto do território. Sofrendo com a dura repressão militar do governo, esse grupo precisou se deslocar do norte, gerando assim, um fluxo de refugiados, tanto no interior do território do Mali, quanto para os países vizinhos. (Duarte, 2013).

Atingido também por um período de longa seca, entre as décadas de 1970 e 1980, o Mali contou com a ajuda humanitária internacional para se manter diante dos problemas ambientais e humanitários. Contudo, a ajuda era direcionado, em sua maioria, para a região sul do país, assim, mais uma vez os Tuaregues sofreram com a marginalização e com a falta de ajuda diante esse período, e, juntamente com rebeldes da Argélia e da Líbia, em 1990 deu-se início a segunda rebelião no Mali. Para conter a rebelião, o governo do Mali, sob o comando do tenente Moussa Traoré, assinou em 1991 um acordo de paz (Acordos de Tamanrasset).

Gerando uma onda de descontentamento para com o resto dos grupos étnicos do Mali, Moussa Traoré, em março de 1991, sofreu um golpe de Estado. Amadou Toumani Touré conduziu o governo transitório, todavia, em vez de honrar o acordo de paz assinado anteriormente, guiou uma conferência nacional com diferentes grupos de malineses, e assinou o Pacto Nacional, que tinha como objetivo levar o desenvolvimento para a região norte do país.

Sob o governo de Alpha Oumar Konaré (1992-2002), os movimentos armados dos Tuaregues foram dissolvidos em 1996, na cerimônia da Chama da Paz, no qual, centenas de armas do grupo foram queimadas. Em 2002, durante o governo de Amadou Toumani Touré, o Mali passou por um novo período de seca, o que acabou proporcionando o levante de novos grupos rebeldes. Insatisfeitos com a lentidão na implementação do Pacto Nacional, entre 2007 e 2008, a região norte do Mali, em Agadez, foi palco de um novo levante rebelde, ocasionando a terceira rebelião tuaregue. Mediado pelo governo da Argélia, em 2009, foi assinado um novo acordo de paz.

Em outubro de 2011, organizado pelos povos Tuaregue, foi criado o Movimento Nacional para a Libertação de Azawad (MNLA), que possuia conexão com diferentes grupos islâmicos, como a Al-Qaeda no Magreb Islâmico (AQMI), o Movimento pela Unidade e Jihad na África Ocidental (MUJAO) e o Ansar Dine (CFR, 2024).

Assim, em janeiro de 2012, o MNLA conduziu uma série de ataques no território do Mali, promovendo saques e culpando o governo de, mais uma vez, não dar prosseguimento ao acordo de paz e não resolver as questões dos tuaregues. Desse modo, a crise no Mali, que começou em 2012, foi movida por um movimento de resistência e insurgência, sendo destacada como a quarta rebelião Tuaregue, no qual o grupo iniciou uma onda violência visando também a independência do território Azawad. Essa foi a primeira das rebeliões que tinha como fim a separação do território e a criação de uma nova fronteira. (Boilley, 2012; Duarte, 2013).

Insatisfeitos com a falta de condução da rebelião, os militares derrubaram o governo de Amadou Toumani Touré em março de 2012. Assim, os rebeldes do MNLA assumiram o poder da cidade de Gao e conseguiram avançar para outras capitais da região (Kidal e Timbuktu), o que se tornaria o estopim para a crise, uma vez que foi instalado pelo grupo o Estado Autônomo de Azawad.

Não concordando com a imposição da sharia (lei islâmica) como forma de governo no novo Estado Autônomo, por parte do grupo radical Ansar Dine, o MNLA rompeu a aliança. Assim, o ano de 2012 foi marcado por uma onda de violência intensa no país (Duarte, 2013; CFR, 2024).

Com a presença de diferentes grupos armados por todo o território, captando a atenção de diferentes atores internacionais, em 2013 o governo do Mali solicitou ajuda da França, e no mesmo ano a Organização das Nações Unidas e a União Europeia enviaram tropas para atuação em terreno. Assim, a MINUSMA (Missão Multidimensional Integrada para Estabilização das Nações Unidas do Mali) e a EUTM (European Union Training Mission) foram iniciadas para lidar com os rebeldes, porém o país também sofreu invasões de grupos jihadistas, o que definiria um conflito generalizado entre todas as partes.

As duas Missões atuaram no território do Mali por uma década, na busca pela restauração da ordem e na retomada e controle do território. Enquanto a MINUSMA tinha como objetivo a implementação do acordo de paz e a restauração do Mali, a EUTM tinha como fim auxiliar as Forças Armadas do Mali na busca pela restauração da sua capacidade militar, por meio da prestação de aconselhamento, treinamento e educação. (União Europeia, 2020; MINUSMA, 2022).

Por solicitação do governo do Mali, em 2023, a Missão Multidimensional do Mali foi encerrada e mais de 13 mil soldados saíram do território, enquanto a EUTM foi estendida até 2024. Contudo, é importante ressaltar que as missões apresentaram falhas, e o país se manteve como palco de grande disputa territorial, envolvendo as forças nacionais, os tuaregues e novos grupos muçulmanos (Jama’at Nasr al-Islam wal Muslimin - JNIM). Os ataques, em forma de guerrilha, visavam uma disputa por poder e influência do domínio territorial. Os tuaregues, que possuem visão separatista, eram contrários à tomada de poder, por parte das Forças Armadas, das antigas bases militares ocupadas pelas tropas da MINUSMA.

A presença de grupos terroristas também fez com que as missões se ocupassem ao seu combate, falhando na resolução primária do conflito: a assistência ao grupo Tuaregue e a distribuição do território. A questão territorial se torna importante na análise da história do Mali, uma vez que no processo de construção do Estado-Nação, nos moldes westfalianos, as identidades culturais coletivas nômades acabaram sofrendo repressão, sendo massacrados pela nova forma de divisão da sociedade. Assim, a territorialidade é um tema presente nos conflitos atuais. (Silva, 2023 ).

Em relação à atuação dos grupos terroristas, o grupo JNIM protagonizou episódios de puro terror como, por exemplo, o bombardeamento do aeroporto internacional e da base aérea nacional, próximos a Bamako, capital de Mali. Esse ataque, realizado em setembro de 2024, foi o primeiro desde 2017, e deixou mais de 70 pessoas mortas e aproximadamente 250 feridos, marcando uma nova etapa de conflitos no país.

Na busca pela resolução do conflito no Mali, ressalta-se que a MINUSMA foi considerada uma das missões de manutenção de paz mais desafiadoras da ONU, e a segunda com maior número de fatalidades, e embora adotando uma postura violenta, não conseguiu estabilizar a situação do país, que se manteve em guerra durante todos esses anos e até os dias atuais.

Em 2024, o número de ataques mais do que duplicou. Sem a presença das tropas de apoio da ONU e da União Europeia, os habitantes estão cada vez mais se deslocando, causando uma onda de deslocamento interno e de refúgio para os países vizinhos. A proposta de diálogo para negociar um cessar fogo, criada no final de dezembro de 2023, foi indeferida logo no início de 2024, declarando o acordo de paz como nulo e sem efeito, devido ao fato dos signatários não cumprirem seus acordos e o principal mediador, a Argélia, agir de forma “hostil”.

Referências

CRISIS GROUP. Mali. International Crisis Group. Disponível em: https://www.crisisgroup.org/africa/sahel/mali. Acesso em: 9 jun. 2025.

EWOKOR, Chris. Crise no Mali: violência explode após ataque de rebeldes contra Exército. BBC News Brasil, 1 out. 2023. Disponível em: https://www.bbc.com/portuguese/articles/c3gl4nr6455o. Acesso em: 9 jun. 2025.

DW – DEUTSCHE WELLE. Mali, uma crise que se arrasta há dez anos. DW, 30 mar. 2022. Disponível em: https://www.dw.com/pt-br/mali-uma-crise-que-se-arrasta-h%C3%A1-dez-anos/a-61310649. Acesso em: 9 jun. 2025.

DUARTE, G. R. Crise no Mali: as origens do conflito e os entraves para a resolução. Conjuntura internacional, v. 10, n. 1, p. 7–14, 2013.

Encerramento da missão de paz da ONU em Mali. Disponível em: https://news.un.org/pt/gallery/1827422.

MINUSMA. Disponível em: <https://minusma.unmissions.org/en>.

EEAS Europa. Disponível em: <https://www.eeas.europa.eu/eutm-mali/eutm-mali-european-union-training-mission-mali-military-mission_und_en>.

CFR. Disponível em: <https://www.cfr.org/global-conflict-tracker/conflict/violent-extremism-sahel>.

Boilley, Pierre Azawar, Mali? Quais as raízes e quais evoluções?. Projeto História. São Paulo, n.44, pp.259-271, 2012.

SANTOS, Vivian da Silva. A questão tuaregues ao norte do Mali e a formação do Sistema de Crises Conflitos do Sahel (África Ocidental). Dissertação (Programa de Pós-Graduação em Geografia), 209 f., UFRJ, Rio de Janeiro, 2023.


  1. É possível destacar os seguintes grupos étnicos: Bambara (33,3%), Fulani (Peul) (13,3%), Sarakole//Soninke/Marka (9,8%), Senufo/Manianka (9,6%), Malinke (8,8%), Dogon (8,7), Sonrai (5,9%), Bobo (2,1%), Tuareg/Bella (1,7%), outros malianos (6%), segundo estimativa de 2018 (CIA FACTBOOK). Disponível em: <https://www.cia.gov/the-world-factbook/countries/mali/>. Acesso em set. de 2025. ↩︎

  2. Os Tuaregues estão localizados na parte norte do continente africano, sendo distribuídos em sua maioria no Mali, e em menor proporção em regiões do Níger, Burkina Faso, Argélia, Mauritânia e Líbia (Duarte, 2013). ↩︎

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