Observatório de Conflitos
Acompanhamento sistemático de conflitos armados e crises geopolíticas em andamento globalmente, pelo NPSeD/UFSC.
monitorados
UCDP · COW
atualização
Myanmar
Última atualização ago/2026
A guerra civil de Mianmar ainda se encontra arduamente ativa, com diversos grupos lutando por independência contra a junta que assumiu o poder em 2021. Os últimos meses de conflito foram caracterizados por um apoio em ascensão por parte da Rússia e China à junta.
O segundo semestre de 2025 teve como principal acontecimento as criticadas eleições organizadas pela junta, a primeira desde a tomada de poder e que excluiu o partido que havia ganho as duas últimas eleições democráticas como também teve a exclusão de diversos outros. Outro grande fator foi o aumento do suporte Russo-Chines a Mianmar, esse suporte vem principalmente na forma de equipamento militar por ambas, Rússia e China e de forma política, por parte da China. Também o conflito continuou com diversos ataques aéreos controversos por parte da junta como, esse, esse, esse, esse, esse, esse e esse. Como também diversas emboscadas por parte dos rebeldes, característicos de estratégias de guerrilha.
Já no primeiro semestre de 2026 o conflito foi marcado pelo resultado das eleições organizadas pela junta, os efeitos da guerra entre Irã e EUA e desenvolvimentos do cenário político. A influência chinesa continua forte, com projetos de infraestrutura e outras formas de apoio por parte chinesa sendo essenciais para a manutenção do poder da junta, também apoio Iraniano foi reportado à junta. As eleições do país tiveram desfecho já esperado pelos analistas internacionais, com o partido da junta tendo a maioria das cadeiras parlamentares e o presidente eleito, que fez parte da tomada de poder pela junta. Também no lado político a antiga presidente do país foi derrepentemente liberada da prisão pela junta e nos últimos dias se encontrou com um oficial da Cruz Vermelha, primeira organização do exterior a falar com a ex-presidente desde o golpe. Também alguns esforços por parte da Tailândia foram feitos para abrir um diálogo entre o ASEAN e Mianmar, porém lideranças do bloco econômico dizem que a entrada do país “está longe”. Também o presidente eleito nas últimas eleições organizadas pela junta tentou uma abertura com rebeldes para paz, que foi abruptamente rejeitada. Os ataques aéreos controversos também continuaram, com um aumento na violência contra civis. Um ponto importante a observar é o plano de ação do atual presidente.
Histórico
É considerado que o estado de conflito em Myanmar tem início pelo menos desde sua independência, em 1948, e se estende até os dias atuais. Suas raízes estão na fragilidade do Estado, nos sucessivos golpes militares e na busca por autonomia de diversos grupos étnicos. A crise se agravou ainda mais após o golpe militar de 2021, que derrubou o governo civil eleito e intensificou os confrontos tanto contra as Forças Armadas quanto entre diferentes facções, mergulhando Myanmar em um ciclo prolongado de violência e repressão (Breu, 2023; Global Conflict Tracker, 2025).
Em primeiro plano, com o fim de compreender as raízes do conflito atual, é importante ressaltar que a antiga Burma/Birmânia, poucos anos após ter sua independência concedida pela Grã-Bretanha, já enfrentou seu primeiro golpe militar em 1962. Esse período foi marcado por prisão dos opositores políticos, uma grande perseguição a minorias étnicas, violação de direitos humanos e um crescente sentimento de insatisfação da população com o governo. Em 1990, a junta militar que estava no poder decidiu realizar as primeiras eleições gerais (com a inserção de outros partidos) do país em quase 30 anos, o que levou a uma vitória esmagadora da Liga Nacional para a Democracia (NLD, em inglês), liderado pela ativista Aung San Suu Kyi, uma voz importante contra o autoritarismo militar no país que acabou recebendo o prêmio Nobel da paz em consequência da sua negociação pela soltura de presos políticos. Os militares não aceitaram os resultados da eleição, mas perceberam que precisavam implementar mudanças no país para se manter no poder, dado o evidente descontentamento da população com a situação política mianmarense. Uma das medidas tomadas foi a elaboração de uma constituição em 2008, a qual estabeleceu singelas reformas e garantiu a manutenção do poder militar no sistema político do Myanmar (Global Conflict Tracker, 2025).
Em novembro de 2010, a junta novamente convoca outras eleições gerais, marcando um aparente começo de abertura política do país. O vencedor foi o Partido União, Solidariedade e Desenvolvimento (USDP), um partido político, que apesar de civil, era apoiado pelos militares da junta, os quais continuaram a exercer grande influência na política do Myanmar. Em 2015, mais uma rodada de eleições parlamentares ocorreu e desta vez marcou a vitória da Liga Nacional para a Democracia. (Global Conflict Tracker, 2025; Reuters, 2016).
Nas eleições de 2020, o partido de Suu Kyi ganha ainda mais assentos que 2015 devido à popularidade do governo entre a população. Os militares alegam fraude, e com a negação pela recontagem e impedimento pelo adiamento da abertura do parlamento, realizam um novo golpe em fevereiro de 2021. Com isso, declararam estado de emergência no país e passam a controlar todos os poderes. Há uma enorme resistência da sociedade, que inicialmente realiza protestos pacíficos, respondidos de forma violenta pelo Tatmadaw (Forças Armadas controladas pelos militares), instaurando assim uma resistência ofensiva de diversos grupos armados, insurgentes e população civil (Global Conflict Tracker, 2025).
O atual conflito envolve, desta forma, múltiplos atores armados. De um lado, está o Tatmadaw, que controlam a capital e áreas estratégicas; de outro, o Governo de Unidade Nacional (NUG), formado por parlamentares depostos, ativistas e desertores militares, apoiado por milícias urbanas conhecidas como Forças de Defesa do Povo (PDF). Além disso, diversos grupos étnicos armados— como o Exército de Independência Kachin, a Frente Nacional Chin e os grupos Karen — que já lutavam há décadas por maior autonomia intensificaram suas operações, em alguns casos aliados ao NUG, em outros com pautas próprias de autonomia regional. A fragmentação do poder faz com que os combates se espalhem por todo o território, com ofensivas contra bases militares, ataques aéreos indiscriminados contra civis e deslocamentos forçados em massa. Esse movimento de resistência, além de grupos étnicos armados que atuam de forma independente do NUG, conseguiram enfraquecer significativamente o governo, visto a redução de quase 60% dos soldados da junta desde que eles tomaram o poder (Global Conflict Tracker, 2025).
Em julho de 2025, a junta militar anunciou o fim do estado de emergência do país e eleições gerais a serem realizadas ainda em dezembro de 2025. Acredita-se que essa é mais uma tentativa dos militares de consolidarem seu poder no Myanmar, assim como fizeram com a elaboração de uma Constituição no início dos anos 2000 (Global Conflict Tracker, 2025).
Estima-se que milhões de pessoas estejam em situação de deslocamento interno, agravando uma crise humanitária já crítica enfrentada por diversos grupos étnicos. O povo Rohingya, minoria muçulmana concentrada no estado de Rakhine, segue como um dos mais atingidos. Apátridas por decisão estatal- com a justificativa de que esse povo não é historicamente original do país, mas sim do Bangladesh- enfrentam desde 2016 campanhas de limpeza étnica denunciadas pela ONU como crimes contra a humanidade. Mais de um milhão foram forçados ao exílio, principalmente em Bangladesh, mas também em outros países do Sudeste Asiático, como Malásia, Índia, Tailândia e Indonésia. Ademais, o caso é levado à Corte Internacional de Justiça em 2019 pela violação da Convenção sobre o genocídio por parte de Mianmar (BBC, 2017; Global Conflict Tracker, 2025).
A tragédia humanitária se aprofundou com o terremoto que atingiu Mianmar em 2025, deixando milhares de mortos e feridos, além de destruir infraestrutura básica em regiões já devastadas pela guerra. A catástrofe natural expôs ainda mais a incapacidade do Estado em prover assistência e sua dependência de ajuda internacional, frequentemente dificultada por restrições impostas pela junta militar (Crisis Group, 2025).
No campo diplomático, a Associação das Nações do Sudeste Asiático (ASEAN) tenta atuar como mediadora. O bloco elaborou em 2021 o “Consenso de Cinco Pontos”, que previa o fim da violência, diálogo entre todas as partes, envio de ajuda humanitária e nomeação de um enviado especial. No entanto, a falta de mecanismos coercitivos e as divisões internas da própria ASEAN – com países como Tailândia e Camboja mais próximos da junta – limitaram os avanços. Ainda assim, a organização conseguiu coordenar assistência humanitária após o terremoto e mantém pressão diplomática para uma solução negociada, embora sem resultados concretos quanto à transição política. Já a ONU é outra uma organização internacional muito vocal principalmente com a promoção de ajuda humanitária para milhões de refugiados Rohingya. Os Estados Unidos tiveram opiniões diferentes de acordo com o presidente que governava o país: durante o mandato de Biden, o presidente acusava fortemente o país de crimes de genocídio e crimes contra a humanidade. Já no atual governo Trump, o presidente tenta melhorar as relações com o país, visto a possibilidade de explorar os minerais do país. A China, por sua vez, possui boas relações tanto com a junta militar, como com o grupo NUG, já que se interessa muito pelos minerais, óleo e gás do país (Albert; Maizland, 2025; Antara News, 2024; Foreign Policy, 2025; Crisis Group, 2025).
Assim, o conflito em Mianmar combina disputas políticas, rivalidades étnicas, crises humanitárias e desastres naturais, resultando em instabilidade prolongada e em uma das emergências mais complexas da atualidade.
Referências
ALBERT, Eleanor; MAIZLAND, Lindsay. Backgrounder: The Rohingya Crisis. Council of Foreign Relations, 2020. Disponível em:https://www.cfr.org/backgrounder/rohingya-crisis Acesso em: set. 2025.
BBC. Aung San Suu Kyi: No ethnic cleansing of Myanmar Muslim minority. 2017. Disponível em: https://www.bbc.com/news/world-asia-39507350 Acesso em: set. 2025.
BREU, Alex.Myanmar and the Longest Civil War in the World, 2023. Disponível em: https://www.planetclassroom.world/myanmar-civil-war/ Acesso em: set. 2025.
CRISIS GROUP. Will Myanmar’s Devastating Earthquake Impact its Civil War?. Hold your fire podcast, 2025. Disponível em: www.crisisgroup.org/asia-pacific/myanmar/will-myanmars-devastating-earthquake-impact-its-civil-war Acesso em: set. 2025.
GROSSMAN, Derek. Trump Is Inching Toward a Major Strategic Blunder in Myanmar. Foreign Policy, 2025. Disponível em: foreignpolicy.com/2025/08/21/myanmar-us-trump-junta-critical-minerals-war-china-min-aung-hlaing/ Acesso em: set.2025.
GLOBAL CONFLICT TRACKER. Civil War in Myanmar. Council of Foreign Relations, 2025. Disponível em: https://www.cfr.org/global-conflict-tracker/conflict/rohingya-crisis-myanmar Acesso em: set. 2025.
MAIZLAND, Lindsay. Backgrounder: Myanmar’s Troubled History: Coups, Military Rule, and Ethnic Conflict. Council of Foreign Relations, 2022. Disponível em: https://www.cfr.org/backgrounder/myanmar-history-coup-military-rule-ethnic-conflict-rohingya Acesso em: set. 2025.
