Observatório de Conflitos
Acompanhamento sistemático de conflitos armados e crises geopolíticas em andamento globalmente, pelo NPSeD/UFSC.
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UCDP · COW
atualização
República Democrática do Congo
Última atualização ago/2026
Durante os meses de julho e agosto de 2026, a República Democrática do Congo (RDC) enfrenta uma situação humanitária sem precedentes, caracterizada pela expansão territorial da Aliança do Rio Congo/Movimento 23 de Março (AFC/M23) nas províncias de Kivu do Norte e Kivu do Sul, incluindo a captura estratégica das cidades de Goma, Bukavu e Uvira. Relatórios humanitários de 24 de julho de 2026 indicam que os confrontos armados se intensificaram nos altos planaltos de Fizi e Mwenga, provocando novos deslocamentos e agravando as necessidades de uma população já vulnerável. Paralelamente à violência, o país combate um surto de Ebola em rápida expansão, que até o dia 7 de agosto de 2026 já contabilizava 4.209 casos confirmados, sendo que a província de Ituri concentra 86% das ocorrências em um contexto de vigilância dificultada pela insegurança. A crise é agravada por choques climáticos e insegurança alimentar, afetando cerca de 26,6 milhões de pessoas em todo o país. No total, 18,5 milhões de pessoas necessitam de assistência humanitária em 2026, mas o plano de resposta enfrenta um grave déficit de financiamento de US$ 1,1 bilhão, tendo alcançado apenas 47,39% dos US$ 2,1 bilhões necessários até meados de agosto.
Histórico
A República Democrática do Congo (RDC), país da África Central rico em minerais estratégicos, enfrenta graves obstáculos ao seu desenvolvimento devido a décadas de instabilidade política, corrupção, presença de milícias armadas, tráfico ilícito e tensões étnicas. Após as duas guerras nos anos 1990, que envolveram diversos países vizinhos e ficaram conhecidas como “a Primeira e a Segunda Guerra do Congo”, o país é tomado por conflitos armados. Desde 2022, em uma nova escalada de violência, especialmente no leste do território, consolida-se uma guerra civil que combina disputas locais com forte ingerência externa. (CIA, 2025; Cannon, 2O24; Masongele, 2016).
As origens de sua instabilidade remontam ao período colonial, quando a Bélgica explorou brutalmente o território, desestruturando sociedades locais e moldando uma economia dependente da extração mineral. Após a independência, em 1960, o país mergulhou em crises políticas sucessivas, culminando na ditadura de Mobutu Sese Seko (1965–1997), marcada por corrupção, centralização autoritária e enfraquecimento das instituições (Bernardes; Maia, 2019).
A queda de Mobutu abriu caminho para as chamadas Guerras do Congo. A Primeira Guerra do Congo (1996–1997) foi liderada por Laurent-Désiré Kabila, apoiado por Ruanda e Uganda, e resultou na derrubada de Mobutu. Já a Segunda Guerra do Congo (1998–2003) envolveu diretamente nove países africanos e dezenas de grupos armados, sendo considerada o maior conflito desde a Segunda Guerra Mundial, com mais de 5 milhões de mortos diretos e indiretos. Embora formalmente encerrada com o Acordo de Pretória (2002) e a formação de um governo de transição, a violência nunca cessou, especialmente no leste da RDC, onde a presença de minerais estratégicos alimenta tanto a economia de guerra das milícias quanto a cobiça de potências regionais e globais (Fialho et al., 2024; Gouvêa et al., 2023; Council On Foreign Relations, 2025).
A atual guerra civil, intensificada em 2022, é herdeira desse histórico de fragilidade estatal, divisões étnicas e disputas por recursos. A província de Kivu do Norte tornou-se o epicentro da violência com a rearticulação do Movimento 23 de Março (M23). O grupo é composto principalmente pela etnia tutsi e estava inoperante há anos, desde que sofreu fortes derrotas contra o governo congolês e abdicou da luta armada em 2013. O M23 afirma que seu principal objetivo é humanitário, uma vez que visa proteger a comunidade tutsi da RDC contra a violência de outros grupos armados, principalmente aqueles compostos por Hutus (Africa Center For Strategic Studies, 2022). Em janeiro de 2025, o M23 chegou a capturar a cidade de Goma, capital provincial, além de controlar áreas mineradoras estratégicas. O grupo financia-se sobretudo pela exploração e venda de coltan, cuja comercialização com Ruanda garante milhões de dólares em receita. O governo congolês acusa Ruanda de apoiar política e militarmente o M23, inclusive com o envio direto de tropas, o que agrava as já históricas tensões entre os dois países (Hairsine, 2024; Council on Foreign Relations,2025).
Outro ator central no leste da RDC é a organização jihadista Forças Democráticas Aliadas (ADF), surgida em Uganda nos anos 1990 e atualmente vinculada ao autoproclamado Estado Islâmico. Liderada por Musa Baluku desde 2015, a ADF tem sido responsável pelos maiores massacres de civis na região de Kivu do Norte e Ituri, recorrendo a atentados suicidas, sequestros e execuções (ACLED, 2025).
Já as forças internacionais que atuam em apoio do governo da RDC são, principalmente, a Missão da Organização das Nações Unidas para a Estabilização na República Democrática do Congo (MONUSCO) e a Força de Defesa Popular de Uganda (UPDF). A MONUSCO foi criada em 2010 como uma missão de paz, sendo composta por forças militares e civis com o mandato de estabilização e assistência humanitária. Contudo, a ação da MONUSCO foi controversa entre setores da população, havendo uma série de protestos contra sua permanência no país nos anos de 2022 e 2023, levando o presidente Félix Tshisekedi a solicitar ao Conselho de Segurança da ONU a retirada gradual da missão, em curso desde 2024. Já a UPDF coopera com o governo congolês por meio da Operação Shujaa, ofensiva militar lançada em 2021, cujo objetivo é combater forças insurgentes em Kivu e Ituri, principalmente afiliadas do Estado Islâmico e FDA. A operação alcançou relativo sucesso, impondo derrotas a ADF e forçando sua fuga de várias localidades (Global Conflict Tracker, 2025; ACLED, 2025; Nações Unidas, 2025).
No plano regional, a União Africana (UA) e a Comunidade de Desenvolvimento da África Austral (SADC) têm buscado mediar a crise. Em 2023, a SADC autorizou o envio de tropas adicionais para apoiar o governo congolês, enquanto a UA promoveu diálogos em Adis Abeba entre RDC e Ruanda. Apesar disso, as rivalidades regionais – especialmente o apoio de Kigali ao M23 – limitam a eficácia da diplomacia (Machivenyika, 2025; Moncrieff, 2025).
A mediação internacional ganhou novo fôlego em 27 de junho de 2025, quando os ministros das Relações Exteriores da RDC e de Ruanda assinaram um acordo de paz na Casa Branca, em Washington. O pacto prevê o fim das hostilidades, o respeito à integridade territorial de ambos os países e a suspensão de apoio a grupos armados. Também inclui planos de cooperação econômica, com destaque para o comércio de minerais congoleses respaldado por potenciais investimentos norte-americanos. O secretário de Estado dos EUA, Marco Rubio, anunciou ainda uma futura cúpula presidencial em Washington, enquanto negociações paralelas entre Kinshasa e o M23 ocorrem em Doha, no Qatar. Ambas iniciativas são saudadas por atores como a ONU, a UA, a França e a Rússia (Moncrieff, 2025).
Internacionalmente nota-se, portanto, como a RDC tornou-se um tabuleiro geopolítico. Países ocidentais condenam os abusos de Ruanda e oferecem assistência militar e humanitária ao governo congolês, ao mesmo tempo em que buscam garantir acesso seguro a minerais essenciais para a transição energética e a indústria tecnológica. A China, por sua vez, fortalece laços econômicos com Kinshasa, controlando concessões de cobre e cobalto. Assim, a disputa congolesa vai além de suas fronteiras, entrelaçando interesses regionais e globais.
Enquanto isso o país da África central perpassa uma das piores crises humanitárias da história do pós-2°guerra, resultando, até o momento, em mais de 7.2 milhões de deslocados internos, além de que violações dos direitos humanos, abusos, e violência contra menores são recorrentes (Council of Foreign Relations, 2025). A combinação entre fragilidade institucional, rivalidades étnicas, exploração ilegal de recursos e ingerência externa explica por que o país segue sendo palco de uma das crises mais graves e complexas do mundo contemporâneo.
Referências
ACLED. ACLED’s latest data and analysis on Democratic Republic of Congo, 2025. Disponível em: acleddata.com/country/democratic-republic-congo Acesso em: jun, 2025.
AFRICA CENTER FOR STRATEGIC STUDIES. Rwanda and the DRC at Risk of War as New M23 Rebellion Emerges: An Explainer, 2022. Disponível em: africacenter.org/spotlight/rwanda-drc-risk-of-war-new-m23-rebellion-emerges-explainer/ Acesso em: jun. 2025.
BERNARDES, M. N.; MAIA, N. P. O Estado Africano, o conflito político na República Democrática do Congo e as suas projeções de desenvolvimento. Conjuntura internacional,v. 16, n. 2, p. 41, 1 out. 2019. Disponível em: https://periodicos.pucminas.br/index.php/conjuntura/article/view/20120. Acesso em: 29 nov.
CANNON, Byron. Democratic Republic of the Congo’s mineral resources, 2024. Disponível em: www.ebsco.com/research-starters/mining-and-mineral-resources/democratic-republic-congos-mineral-resources Acesso em: jun 2025.
CIA. The world factbook- Republic Democratic of Congo, 2015. Disponível em: www.cia.gov/the-world-factbook/countries/congo-democratic-republic-of-the/ Acesso em: jun 2025.
COUNCIL OF FOREIGN RELATIONS. Conflict in the Democratic Republic of Congo. Global Conflict Tracker, 2025.
Disponível em: https://www.cfr.org/global-conflict-tracker/conflict/violence-democraticrepublic-congo. Acesso em: 29 nov. 2025.
FIALHO, Ana Clara Alves Mont’Alvão; HÜBNER, Gustavo Scalabrin; MATA, Otávio Kich.
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de Barros e; SANTOS, Tais Aparecida Silva dos; PENA, Tifany Alejandra Escalante (org.). UFSCMUN: Vozes do Amanhã. 7. ed. Florianópolis: Even3, 2024. Cap. 5, p. 122-148. Disponível em: https://drive.google.com/drive/folders/1ZO1Nx2-wcKzjt8As9T24MiwPKar7xcHA. Acesso em: 29 nov. 2024.
GOUVÊA, C. B.; CASTELO BRANCO, P. H. V. B. .; SILVA JUNIOR, E. V. da . Os Conflitos na República Democrática Do Congo (1960-2007). Tensões Mundiais, [S. l.], v.
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HAIRSINE, Kate. Quem é quem no conflito na RDC. Deutsch Welle, 5 fev. 2024. Disponível
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MACHIVENYIKA, Farirai. Southern Africa: DRC Crisis - AU Commends SADC, EAC Peace Initiative. AllAfrica, fev 2025. Disponível em: allafrica.com/stories/202502030066.html Acesso em: jun 2025.
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MONCRIEFF, Richard. The DR Congo-Rwanda Deal: Now Comes the Hard Part. International Crisis Group, 2025. Disponível em: www.crisisgroup.org/africa/democratic-republic-congo/dr-congo-rwanda-deal-now-comes-hard-part Acesso em: julho, 2025.
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