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Projetos / Observatório de Conflitos / Síria

Observatório de Conflitos

Acompanhamento sistemático de conflitos armados e crises geopolíticas em andamento globalmente, pelo NPSeD/UFSC.

27
Conflitos
monitorados
4
Categorias
UCDP · COW
ago/2026
Última
atualização

Síria

Localização
Mapa do conflito: Síria
Classificação
Guerra Intraestatal
Guerra civil por questões locais
Oriente Médio
Status
Ativo
Principais combatentes
Autoridades de transição e forças de segurança sírias × Forças Democráticas Sírias (SDF) × Estado Islâmico (ISIS) × grupos armados locais e facções jihadistas

Última atualização ago/2026

Desde a queda de Bashar al-Assad, em dezembro de 2024, a Síria passou por uma fase de transição, marcada pela tentativa do presidente, Ahmed al-Sharaa, de consolidar a autoridade estatal e integrar diferentes atores a uma nova governança do país. No entanto, a queda do regime de Assad não significou o fim da violência armada: em 2025, ataques contra comunidades alauítas em Tartous, Latakia e Hama deixaram pelo menos 1.400 mortos, enquanto confrontos em Sweida, entre grupos drusos e beduínos pró-governo, resultaram em cerca de 1.000 mortos. Já em janeiro de 2026, o governo avançou militarmente sobre áreas do norte e leste do país controladas pelas Forças Democráticas Sírias (FDS/SDF), reduzindo o território sob controle curdo e pressionando pela implementação do acordo de integração firmado em 2025, o que levou a um novo acordo de cessar-fogo, que estabeleceu a retirada das forças das linhas de frente e a criação de uma divisão militar composta por brigadas da FDS. O processo de integração continuou ao longo do ano, com a criação de novas brigadas e a absorção de ex-combatentes curdos pela 60ª Divisão do Exército Sírio, ainda que persistam disputas sobre o papel das mulheres combatentes nas novas estruturas de segurança. Ao mesmo tempo, o governo seguiu aprofundando a centralização institucional, apoiado na declaração constitucional que concentrou poderes no Executivo, enquanto avançava na incorporação de áreas e instituições anteriormente administradas pelas autoridades curdas.

No âmbito internacional, a Síria também reconfigurou sua relação com potências estrangeiras, como a Rússia. Em agosto de 2026, Damasco e Moscou firmaram um memorando sobre as bases militares russas de Hmeimim e Tartous, pelo qual a Síria assume a gestão das instalações civis, enquanto as instalações militares são transformadas em centros conjuntos de treinamento russo-sírios, mantendo parte da presença militar russa no país sob novas condições. Assim, apesar dos avanços na consolidação da autoridade estatal e na integração territorial e militar, a violência sectária, as disputas sobre a incorporação da SDF, a proteção das minorias e os desafios de segurança relacionados à atividade do Estado Islâmico e às operações israelenses no sul do país continuam dificultando a estabilidade da Síria em 2026.

Histórico

A guerra civil na Síria começou em 2011, desencadeada por protestos populares contra o regime vigente, como parte da Primavera Árabe - movimento iniciado em 2010, na Tunísia, com protestos contra governos autoritários e em favor da democracia no Oriente Médio e no norte da África, levando a queda de diversos governos (CFR, 2024). Além do embate interno, a guerra civil se torna internacionalizada a partir da atuação de grupos armados e potências estrangeiras. Nesse sentido, pode-se afirmar que o conflito sírio envolve questões políticas, étnicas, religiosas e interesses geopolíticos internacionais. Em 2024, o conflito com Assad se encerrou quando o Hayat Tahrir al-Sham (HTS), em coalizão com outros grupos, assumiu o controle. Entretanto, a região ainda vive um ambiente de instabilidade.

Bashar al-Assad sucedeu seu pai, Hafez al-Assad, que governava a Síria desde 1970 a partir de um golpe, com o Partido Baath. Apesar de inicialmente prometer reformas que garantissem maior abertura política, o presidente manteve o regime autoritário de seu pai, reprimindo as oposições e investindo em armamentos, comprometendo o desenvolvimento do país. Assim, em 2011, na onda do ideário da Primavera Árabe, os protestos se iniciaram, devido a insatisfação com o governo, exigindo democracia, combate à corrupção, superação da crise econômica e o respeito aos direitos humanos. Assad respondeu violentamente, temendo ser deposto ou até executado, o que intensificou as manifestações, fazendo com que se espalhassem pelo país (BBC, 2012; Britannica, 2025; CFR, 2024; UCDP, 2023).

Ademais, o conflito envolve diversos grupos com interesses distintos, que buscaram controlar diferentes áreas da Síria e nem sempre estavam lutando diretamente contra o regime de Assad. Trata-se, assim, de um conflito também por procuração, em que potências externas apoiam outros atores para lutar, para promover e garantir seus próprios interesses sem se envolver diretamente no conflito. Os EUA, por exemplo, apoiaram os curdos, enquanto a Rússia apoiou o governo da Síria. Regionalmente, xiitas-alauitas apoiam Assad, e os sunitas, a oposição. Vale destacar também que nenhum grupo conseguiu controlar todo o território, gerando disputas simultâneas em várias regiões. Entre os atores internos, opositores ao regime Assad, estava o Exército Sírio Livre - FSA, formado por ex-militares do governo, que, por falta de recursos, não conseguiu fazer frente à repressão de Assad, e as Forças Democráticas da Síria (FDS), com predominância dos curdos, apoiada pelos EUA, para combater o Estado Islâmico (EI). Já o Exército Nacional Sírio (SNA), combateu o EI e enfrentou as forças curdas (CFR, 2017; 2024; The Guardian, 2024).

Dessa forma, em 2024, o país estava dividido do seguinte modo:

[Figura não reproduzida nesta versão. Fonte: Syria Liveuamap, 2024]

Em âmbito regional, os curdos - povo minoritário sem Estado, que busca autonomia - não lutaram ativamente contra o governo de Assad, mas sob a Unidade de Proteção do Povo Curdo (YPG), com o apoio dos EUA, combateram o Estado Islâmico. Contudo, também enfrentaram a Turquia, que desde 2016 realiza operações contra o EI e os curdos, para proteger suas fronteiras e impedir o fortalecimento dos curdos em seu território. O EI, grupo extremista sunita, também chamado de ISIS ou ISIL, aproveitou a instabilidade e a perda de controle do governo sírio sobre parte de seus territórios para se expandir, ultrapassando a fronteira com o Iraque, visando estabelecer um califado. Em 2019, enfraquece-se, pois acaba perdendo a maioria dos territórios que dominava. Entre os principais atores internacionais estão os EUA e a Rússia (único a se envolver a pedido do governo sírio). Como principais interesses russos, está o aumento da influência na região, evitar mudanças em um regime aliado e proteção de bases militares na costa do Mediterrâneo. Junto aos russos, o Irã também era um dos principais apoiadores do regime Assad, pois usava a Síria como rota para apoiar o Hezbollah, além de temer um novo governo alinhado à Arábia Saudita. Já os norte-americanos buscavam apoiar grupos opositores, mas tiveram como foco o combate ao EI, como parte da sua Guerra ao Terror, limitando seu apoio a grupos que também lutavam contra o EI. Em 2019, reduziram significativamente sua presença na Síria. O Reino Unido e a França também prestaram apoio militar e logístico à oposição (Al Jazeera, 2018, 2022, 2023; BBC, 2019; CFR, 2017, 2024; UCDP, 2023).

Além de fatores geopolíticos, o conflito também envolve questões religiosas. Embora o regime de Assad e de seu pai não tenham sido oficialmente fundamentados em religião, ela exerce um papel importante no apoio ao governo. A Síria é composta por diversos grupos étnicos e religiosos, sendo a maioria da população muçulmana sunita. Assad pertence à minoria alauíta, uma vertente do xiismo, que ocupa posições dominantes na política síria desde 1960, gerando certo ressentimento entre os outros grupos não representados. Como resultado, países de maioria xiita, como Irã, Iraque e o grupo Hezbollah, apoiavam Assad, enquanto países de maioria sunita, como Arábia Saudita, Catar e Turquia, apoiam grupos opositores (Al Jazeera,, 2018; Britannica, 2025; DW, 2024).

Como consequência destes embates, estima-se que mais de seiscentas mil pessoas morreram desde o início do conflito, com grande parte dos civis ainda dependendo de ajuda humanitária. A Síria também sofreu um dos maiores deslocamentos forçados do mundo. Além disso, o regime foi acusado e condenado internacionalmente pelo uso de armas químicas no conflito (CFR, 2024, 2025).

Desde 2012, houveram tentativas frustradas de negociação para encerrar o conflito, como o plano de cessar-fogo proposto pela ONU e Liga Árabe, as Conferências de Genebra e as negociações de Astana. No entanto, com o tempo, o governo sírio foi enfraquecendo, devido à redução do apoio de aliados e à crise financeira, perdendo também Assad apoio popular. Paralelamente, os grupos anti-regime, especialmente o HTS - que se formou oficialmente após romper com o EI e a al-Qaeda em 2017 - se fortaleceram. Em 27 de novembro de 2024, o HTS e uma coalizão de grupos de oposição lançaram uma operação, que capturou a cidade de Aleppo e, em 8 de dezembro, chegaram a Damasco, quando Assad e sua família fugiram para a Rússia. A queda foi relativamente rápida e muito influenciada pela falta de apoio significativo de aliados (Al Jazeera, 2017, 2024, 2025; BBC, 2014; CFR, 2024; The Guardian, 2024).

Assim, em 2025 o controle do país passou a ser o seguinte:

[Figura não reproduzida nesta versão. Fonte: Syria Liveuamap, 2025]

A queda do regime foi comemorada pela população e por muitos observadores internacionais, mas o futuro do país sob o HTS permanece incerto, especialmente com possíveis restrições às minorias religiosas, em contraste com o regime anterior, considerado laico. Também foi assinada uma constituição temporária, válida por cinco anos, que mantém a exigência de que o chefe de Estado seja muçulmano e a lei islâmica como base jurídica. Não obstante, desde a queda do regime, apoiadores de Assad têm buscado desestabilizar a nova liderança, com confrontos entre as tropas estatais e grupos liderados por ex-oficiais do antigo governo (Al Jazeera, 2025; BBC, 2025; CFR, 2024).

Além da instabilidade atual, antigos conflitos ressurgem, como nas Colinas de Golã, região estratégica de terras férteis e fontes de água, localizadas no sudoeste da Síria, reconhecidas pela ONU como território sírio. Após a queda do regime de Assad, tropas israelenses avançaram sobre o lado sírio das colinas, inclusive em áreas de zona desmilitarizada monitoradas pela ONU, e realizaram ataques para, segundo Israel, evitar que grupos extremistas reconstruíssem suas capacidades, alegando riscos à sua segurança. O presidente sírio afirmou não buscar conflito com Israel, mas condena os contínuos ataques e a expansão israelense, e afirma que há negociações com Israel para pôr fim aos ataques (Al Jazeera, 2024, 2025; CNN, 2025).

Por fim, sobre a presença dos curdos no país, em março de 2025, o presidente sírio e a SDF firmaram um acordo, estabelecendo a integração da SDF ao Estado, cessar-fogo e cooperação contra forças pró-Assad. Também reconhece os curdos como parte da Síria, com cidadania e direitos garantidos. Apesar de ainda delicado e vago, o acordo é um avanço importante após anos de repressão a esses povos (Al Jazeera, 2025; CFR, 2025).

Referências

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