Observatório de Conflitos
Acompanhamento sistemático de conflitos armados e crises geopolíticas em andamento globalmente, pelo NPSeD/UFSC.
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UCDP · COW
atualização
Sudão
Última atualização ago/2026
Em 2026, a guerra civil sudanesa permanece marcada pela disputa entre as Forças Armadas Sudanesas (SAF) e as Forças de Apoio Rápido (RSF), embora a dinâmica do conflito tenha sofrido alterações importantes. Em 2025, as SAF retomaram o controle de Cartum, e desde então mais de 2 milhões de pessoas retornaram à capital, ainda que a cidade enfrente graves problemas de infraestrutura e ataques recorrentes de drones da RSF contra instalações elétricas e militares. Enquanto isso, a RSF consolidou seu controle sobre grande parte de Darfur, tomando o El Fasher em outubro de 2025, em meio a relatos de execuções sumárias e violência étnica contra civis. Em 2026, o conflito passou a se concentrar cada vez mais em Kordofan, especialmente em torno de El Obeid, onde a RSF intensificou ataques terrestres e com drones e onde ambos os lados ampliaram sua presença militar, com a ONU alertando para o risco de uma ofensiva terrestre contra a cidade. Os combates também se expandiram para o Nilo Azul, com confrontos entre SAF e a aliança RSF–SPLM-N em localidades como Kurmuk, Geissan e Bau.
Paralelamente, a consolidação territorial das duas forças aumentou o risco de fragmentação política do país. A RSF avançou na criação de estruturas de governo paralelas, incluindo um banco central e uma moeda próprios, com sede em Nyala, enquanto a SAF manteve seu governo em Porto Sudão e o controle da maior parte do norte, leste e centro do país. A continuidade dos confrontos também agravou a crise humanitária: segundo a ONU, milhões de crianças em idade escolar permanecem fora da escola, com quase três quartos das escolas de Darfur danificadas ou destruídas desde 2023, enquanto em Kordofan a escalada dos combates dificultou o acesso da população à alimentação, à saúde e à assistência humanitária. A crise permanece ainda mais ampla, com cerca de 8,9 milhões de deslocados internos e mais de 4,5 milhões de pessoas que cruzaram as fronteiras desde 2023. Assim, apesar da retomada de Cartum e da consolidação da RSF em Darfur, a expansão dos combates para outras regiões, a fragmentação política e a ausência de perspectivas de acordo mantêm o país em um cenário de elevada instabilidade.
Histórico
A guerra civil no Sudão envolve um conflito por poder político e militar entre as Forças Armadas Sudanesas (SAF) e as Forças de Apoio Rápido (RSF). As tensões começaram após um golpe em que ambas as forças derrubaram Omar al-Bashir, que estava no poder desde 1989. A partir disso, a SAF e a RSF comandaram o país com constantes atritos, que levaram ao início do conflito armado em abril de 2023 (CFR, 2025). No entanto, o Sudão enfrenta questões que vão além do conflito entre a SAF e a RSF, incluindo disputas territoriais, tensões étnicas, religiosas e políticas que contribuem para a instabilidade da região.
O Sudão tornou-se independente em 1956 e, desde esse momento, já possuía uma região dividida, com o norte com maioria árabe e muçulmana e a região sul, com maioria cristã ou animista. Soma-se a estas tensões a localização estratégica do país, visto que possui terras agrícolas que despertam interesse regional e internacional, que ocasionam disputas territoriais em suas fronteiras, principalmente com a Etiópia. Entre 1983 e 2011, a região enfrentou um conflito decorrente da concentração de poder político, das riquezas e dos investimentos pelo norte, enquanto o sul, apesar de ser rico em petróleo, era marginalizado, além das diferenças étnicas e religiosas. O conflito foi encerrado com a independência do Sudão do Sul. No entanto, logo após a separação, os dois países passaram a disputar a região de fronteira de Abyei - rica em petróleo -, porque com a separação do Sudão do Sul, o país perdeu cerca de 75% de seus recursos petrolíferos, resultando em uma crise econômica já que o Sudão dependia largamente deste recurso energético (CFR, 2025; Observer Research Foundation, 2025; The Guardian, 2023; UCDP, 2023).
Além disso, o Sudão também vive um conflito em Darfur, iniciado em 2003, motivado por questões étnicas antigas, que geram muita tensão, principalmente entre pastores árabes nômades e agricultores não árabes. As comunidades não árabes reclamavam da marginalização, da falta de representação política e do fato de as elites obterem riquezas nas periferias, sem fornecer retorno à população local. Como resposta, o governo, liderado por Bashir, utilizou a milícia Janjaweed (acusada de limpeza étnica contra a população não-árabe), causando pelo menos 400 mil mortos e milhões de deslocados. Somado a isso, outras regiões do país possuem conflitos e instabilidades, como em Kordofan e Nilo Azul, com questões semelhantes aos de Darfur, pautados principalmente pela marginalização política, concentração de recursos e poder nas mãos de elites e o descumprimento de acordos com o governo (Tubiana, 2023; Britannica, 2025; Crisis Group, 2013).
A RSF, grupo paramilitar de maioria árabe - já acusado de abuso de direitos humanos -, foi criada em 2013 a partir da milícia Janjaweed. Em 2017, passou a ser reconhecida legalmente como força de segurança independente e já foi contratada por Bashir para protegê-lo (Tubiana, 2023; BBC, 2025; CFR, 2025).
Especificamente sobre as raízes da disputa entre RSF e SAF, está uma história de 20 tentativas de golpe e duas guerras civis. O país então sofre com crises econômicas, sociais e políticas, intensificadas por divisões internas, má gestão, corrupção. Dessa forma, devido às tensões citadas acima, a região enfrenta um cenário de instabilidade que se prolonga ao longo da história, dificultando a paz no país e impulsionando situações como a atual guerra civil (Britannica, 2025; Observer Research Foundation, 2025).
Esse cenário abriu espaço para lideranças autoritárias, como a de Omar al-Bashir, que após a independência, em 1989, assumiu o poder por meio de um golpe. Em seu governo, impôs uma interpretação rígida da Sharia e perseguiu minorias religiosas. Quando Bashir assumiu o poder, não tinha apoio popular. Dessa forma, para se manter no governo, adotou medidas autoritárias, como a prisão de opositores, a proibição de sindicatos e partidos políticos, controle da imprensa, entre outras. E, a partir da separação do Sudão do Sul e perda das receitas dos petróleos, Bashir anunciou medidas de austeridade, além de prometer mais transparência e liberdade política. Entretanto, as promessas não foram cumpridas e, nos últimos anos de seu governo, a insatisfação popular cresceu devido à falta de transparência, a crise econômica, a inflação e a desvalorização da moeda sudanesa. O Estado também prioriza a elite árabe e marginaliza grupos africanos, sendo os árabes a maioria das forças armadas (Britannica, 2025; CFR, 2025; Observer Research Foundation, 2025).
Essa insatisfação popular levou a mobilizações crescentes da população, e teve como marco os protestos nacionais em dezembro de 2018, após o anúncio do aumento de preços do combustível e do pão, acompanhados por pedidos pela renúncia de Bashir e seu governo. Como resposta, em fevereiro de 2019, o presidente declarou estado de emergência, reformulou seu gabinete e nomeou militares como governadores estaduais. Posteriormente, foi acusado de corrupção e envolvimento na morte de manifestantes. Então, em 2019, a RSF, liderada por Mohamed Hamdan Dagalo (Hemedti), e a SAF, comandada pelo general Abdel Fattah al-Burhan, se uniram para derrubar Bashir em um golpe, com a promessa de uma transição democrática. A partir disso, o economista Abdalla Hamdok foi escolhido como primeiro-ministro, porém a transição não se concretizou, visto que, em 2021, a SAF e a RSF, deram um novo golpe, e o general Burhan assumiu como chefe de estado. Após protestos populares exigindo um governo, Hamdok foi brevemente empossado, ao aceitar dividir poderes com Hemedti e Burhan, mas acabou renunciando. Em 2022, um acordo de transição civil e eleições nacionais foi rejeitado pela população por manter o controle nas mãos das forças de segurança e por não responsabilizar os responsáveis pela violência. Desde então, surgiram discordâncias entre os líderes sobre o rumo do país, a transição para um governo civil, a proposta de integrar a RSF nas forças armadas e a incerteza sobre como as forças seriam colocadas sob autoridade em um futuro governo democrático (BBC, 2019, 2025; CFR, 2025).
Em meio à crescente tensão, tropas da RSF começaram a se deslocar pelo país, o que foi interpretado pela SAF como uma ameaça. Em 15 de abril de 2023, ocorreram tiroteios e explosões em Cartum, sem confirmação de que lado iniciou o conflito, que agrava-se a partir do assassinato do governador Khamis Abakar, possivelmente pela RSF, após ele acusar o grupo de atacar minorias na região (CFR, 2025; BBC, 2025).
Relacionado ao envolvimento externo, o Sudão acusou os Emirados Árabes Unidos de armar a RSF, mas o país negou a acusação. No outro lado, há relatos de que drones iranianos foram entregues ao exército. Ademais, uma coalizão liderada pelo Egito, composta principalmente por potências árabes, tem oferecido maior apoio às forças armadas (BBC, 2025; Crisis Group, 2025).
Em março de 2024, o Conselho de Segurança da ONU aprovou uma resolução exigindo o fim imediato da violência no Sudão. Poucos dias depois, a SAF concordou em negociar com a RSF, com a Turquia e a Líbia, mediando o processo. No entanto, no final do mesmo mês, o general da SAF recusou um cessar-fogo, impondo a condição de que a RSF se retirasse de áreas civis. Os principais atores regionais e internacionais envolvidos nos esforços de mediação são a Turquia, o Egito, os Emirados Árabes Unidos, Arábia Saudita, os EUA e a União Africana. No entanto, nenhuma negociação avançou ao ponto de encerrar a violência do país (CFR, 2025).
A continuidade dos conflitos no Sudão já causaram mais de 14 milhões de deslocados, configurando a pior crise de deslocamento do mundo, com milhões de pessoas sofrendo insegurança alimentar. Desde o início da guerra, mais de 200 incêndios foram registrados, em sua maioria provocados por milícias. Além disso, a violência sexual contra mulheres e meninas vem aumentando no país. E o acesso humanitário é limitado, com ambos os lados acusados de bloquear a entrega de ajuda (CFR, 2025).
Diante desse cenário, em 2025 a divisão do país era a seguinte:
[Figura não reproduzida nesta versão. Fonte: Linge, 2025]
No início de 2025, os combates se intensificam, com a SAF recuperando áreas estratégicas do país. Em fevereiro de 2025, a RSF e aliados se reuniram em Nairobi, para discutir a criação de um governo paralelo. Assinaram um documento com propostas para um governo pós-conflito, que defendia uma estrutura descentralizada, democracia e separação do Estado e religião (CFR, 2025).
Não há perspectiva de negociação a curto prazo, visto que Burhan, de modo público, declara que a guerra continuará até que a RSF se desarme e se renda. Além disso, se ambos cumprirem a promessa de concorrer pelo governo, as negociações podem ser ainda mais difíceis (UCDP 2023). Sobre o conflito em Darfur, os ataques continuam, apesar de períodos de menor violência e de alguns acordos temporários. A região permanece instável e com uma crise humanitária grave, agravada pelos confrontos entre a SAF e a RSF.
Referências
BBC.A simple guide to what is happening in Sudan. Disponível em: https://www.bbc.com/news/world-africa-59035053. Acesso em: 12 maio 2025.
BBC. Omar al-Bashir: Sudan’s ousted president. 2019. BBC. Disponível em: https://www.bbc.com/news/world-africa-16010445. Acesso em: 12 maio 2025.
BENNY, Kelvin; BHATTACHARYA, Samir. Sudan’s struggles:: a history of divided and weak institutions. 2025. Observer Research Foundation. Disponível em: https://www.orfonline.org/expert-speak/sudan-s-struggles-a-history-of-divided-and-weak-institutions. Acesso em: 4 maio 2025.
BRITANNICA. Darfur. 2025. Britannica. Disponível em: https://www.britannica.com/place/Darfur. Acesso em: 3 jun. 2025.
CFR. Civil War in Sudan. 2025. Council on Foreign Relations. Disponível em: https://www.cfr.org/global-conflict-tracker/conflict/power-struggle-sudan. Acesso em: 13 maio 2025.
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CRISIS GROUP. Sudan’s Spreading Conflict (II): War in Blue Nile. 2013. International Crisis Group. Disponível em: https://www.crisisgroup.org/africa/horn-africa/sudan/sudan-s-spreading-conflict-ii-war-blue-nile. Acesso em: 4 jun. 2025.
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