NÚCLEO DE PESQUISA · PPGRI / UFSC
PPGRI-UFSC GESED GEPPIC [email protected]
PT / EN
Projetos / Observatório de Conflitos / Tailândia

Observatório de Conflitos

Acompanhamento sistemático de conflitos armados e crises geopolíticas em andamento globalmente, pelo NPSeD/UFSC.

27
Conflitos
monitorados
4
Categorias
UCDP · COW
ago/2026
Última
atualização

Tailândia

Localização
Mapa do conflito: Tailândia
Classificação
Guerra Intraestatal
Guerra civil por questões locais
Sudeste Asiático
Status
Ativo
Principais combatentes
Forças de segurança tailandesas × grupos insurgentes malaios muçulmanos, especialmente a Frente Revolucionária Nacional (BRN)

Última atualização ago/2026

A Insurgência no Sul da Tailândia permanece ativa, com ataques esporádicos às forças de segurança tailandesas. Em janeiro de 2026, quatro pessoas ficaram feridas em um ataque à bomba contra postos de combustível no sul do país, que coincidiu com a data para as eleições dos administradores locais da região de Patani. Em junho de 2026 o governo tailandês alertou para um novo pico de violência, após 5 soldados serem mortos e 6 civis ficarem feridos em um ataque na região de Narathiwat, com o governo acusando o grupo BRN como responsáveis pelo ataque. Naquele mesmo mês, foi anunciado que o Primeiro Ministro Tailandês, Anutin Charnvirakul, visitaria a Malásia para negociar maior cooperação para lidar com a insurgência no sul do país, ao mesmo tempo que o Secretário do Conselho de Segurança Nacional tailandês elogiou os esforços malaios em fortalecer o controle fronteiriço no extremo sul tailandês, dificultando que os insurgentes Patani se refugiassem na Malásia após a execução de ataques. Dessa maneira, tem-se uma das primeiras contribuições internacionais para um conflito que até então permanecia quase inteiramente como um assunto doméstico da Tailândia.

Histórico

A Insurgência no Sul da Tailândia, também conhecida como Insurgência Patani, é um conflito intraestatal entre forças do governo tailandês e grupos insurgentes separatistas de etnia majoritariamente malaia, que ocorre nas regiões tailandesas de Pattani, Yala, Narathiwat e parte de Songkhla, localizadas no extremo sul do país. O conflito, que teve início em 2001, possui amplas raízes históricas somadas de motivações étnicas, religiosas e socioeconômicas, e já perdura por mais de duas décadas sem uma resolução definitiva para a paz.

Entre as causas históricas para o conflito, destaca-se primeiramente o fato de que em 1902 o Reino da Tailândia (de população budista) anexou parte do antigo Reino Patani, de população muçulmana e etnicamente malaia, enquanto a outra parte foi anexada pela Malásia (Uppsala Conflict Data Program, 2024). Como consequência, ao longo das décadas, a população Patani vivendo no extremo sul da Tailândia sofreu de marginalização cultural, religiosa e linguística, bem como foi alvo de diversas políticas de assimilação cultural por parte do Governo de Bangkok. Ademais, o sul permanece menos desenvolvido e enfrenta altos índices de pobreza, alimentando as tensões. (Pathan, 2012; Timberman, 2013).

Dessa forma, ao longo do século XX o movimento nacionalista Patani se fortaleceu, especialmente a partir da década de 1950 com o Ato de Cultura Nacional, que visava impor uma cultura tailandesa uniforme e “civilizada” (Numnoda, 2011). Assim, nessa época surgiram as principais milícias armadas separatistas, entre as quais se destacam a BRN (Barisan Revolusi Nasional), criada em 1963 e que permanece como o maior e mais influente grupo insurgente Patani, o PULO (Organização para a Libertação do Estado de Patani) fundado em 1968 e que também se mantém ativo, e o GMIP (Movimento Islâmico-Mujahideen de Patani), formado na década de 1990 por nativos Patani que haviam lutado ao lado dos Mujahideen na Guerra do Soviética-Afegã (1979-1989). (Uppsala Conflict Data Program, 2024).

Embora ações insurgentes já ocorressem ao longo do século XX, a violência no sul da Tailândia se intensificou a partir de 2001, durante o governo de Thaksin Shinawatra, ganhando reconhecimento oficial em 2004 após o ataque a uma base militar. A escalada esteve ligada à abolição de mecanismos de apaziguamento criados nos anos 1980, como o Centro Administrativo das Províncias da Fronteira Sul (SBAC), às rígidas políticas de assimilação cultural, às leis antiterrorismo pós-11 de setembro e à campanha antidrogas de 2003, que aumentaram a repressão e a desconfiança em relação à população malaia-patani. Episódios como o tiroteio na mesquita Krue Se e o massacre de Tak Bai, em 2004, aprofundaram as tensões, e mesmo após a queda de Thaksin em 2006 — ano mais violento da insurgência —, o conflito persistiu, apresentando novo pico em 2013 (Abdulmani, 2013; Ismail, 2024; Horiba, 2014). Entre as consequências, destacam-se a dificuldade de administração local após a extinção do SBAC, o subdesenvolvimento crônico das províncias afetadas, violações de direitos humanos cometidas por ambos os lados e ataques contra civis, como o assassinato de professores, refletindo a longa duração e complexidade da insurgência no sul tailandês. (Timberman, 2013; Uppsala Conflict Data Program, 2024)

Já em relação à presença de atores externos, nos primeiros anos da insurgência o governo tailandês acusou a Malásia de apoiar os grupos insurgentes e acusou os insurgentes de receberem treinamento na Província de Aceh, na Indonésia, região que também sofreu uma insurgência separatista até 2005 (Uppsala Conflict Data Program, 2024). Apesar disso, o conflito permanece focalizado no extremo sul tailandês como um assunto doméstico da Tailândia, e não há evidências de contato dos muçulmanos Patani com movimentos armados islâmicos estrangeiros (Timberman, 2013). A percepção do conflito como um assunto interno dificultou por muito tempo as negociações de paz. Exemplo disso é a ASEAN (Associação de Nações do Sudeste Asiático), principal bloco regional do qual a Tailândia faz parte, que além de manter por muito tempo mecanismos frágeis de gestão de crises, segue rigidamente o princípio da não-intervenção- o que limita suas opções de ação. Apenas em 2013 a Malásia, de forma independente da ASEAN, assumiu o papel de mediadora, abrindo espaço para novas perspectivas de pacificação na região. (Uppsala Conflict Data Program, 2024; Vatikiotis, 2009). Ademais, outro desafio significativo para as negociações de paz é a característica fragmentada dos grupos insurgentes, com o governo tailandês focando em negociar primariamente com o BRN, considerado o principal e mais influente grupo Patani,em detrimento dos outros grupos (Abdulmani, 2013; Vatikiotis, 2009).

As negociações de paz entre a Tailândia e o BRN, mediadas pela Malásia, começaram em 2013, mas foram prejudicadas pelo golpe de Estado de 2014. Em 2015, criou-se o MARA Patani, coalizão de insurgentes apoiada pela Malásia, mas o BRN recusou integrar-se, exigindo ser o principal negociador e pedindo maior presença internacional, o que desagradou Bangkok. Como resultado, o diálogo com o MARA Patani teve pouco avanço e foi encerrado em 2018. Somente em 2022 o governo retomou conversas diretas com o BRN, que aceitou discutir soluções dentro da Constituição tailandesa (o que significa discutir maior autonomia, mas não independência), embora outros grupos, como o PULO, tenham rejeitado abandonar os planos para secessão e até realizaram ataques durante o cessar-fogo de 40 dias firmado naquele ano. Em 2023, foi lançado um Plano Integral para a Paz, mas as eleições interromperam o processo, e apesar da retomada em fevereiro de 2024, nenhum acordo concreto foi alcançado (International Crisis Group, 2020; Uppsala Conflict Data Program, 2024).

Ademais, após mais de 20 anos do início da insurgência, o conflito continua. A partir de 2013, a violência diminuiu gradativamente, entretanto, a partir de 2022 o conflito voltou a ganhar intensidade, com diversos ataques sendo realizados no extremo sul tailandês, incluindo ataques a bomba durante as eleições tailandesas em 2023, e um assalto a um escritório governamental tailandês em maio de 2025, que resultou na morte de dois agentes do governo (Human Rights Watch, 2025; Mishra, 2023). Entre as causas apontadas para o aumento da violência nesse período, estão as discordâncias entre a ala armada e a ala política do BRN, com a ala armada rejeitando as declarações de 2022, na qual o grupo se comprometeu em buscar uma solução dentro da constituição Tailandesa. Além disso, em outubro de 2024 as acusações contra os ex-militares tailandeses envolvidos no massacre de Tak Bai, vinte anos antes, prescreveram, impedindo a continuação do processo judicial e permitindo impunidade aos acusados (Human Rights Watch, 2025; Ismail, 2024). Portanto, a crescente violência e a dificuldade em se negociar soluções de paz tornam difícil a resolução do conflito no curto prazo.

Por fim, além desse conflito interno, a Tailândia possui disputas fronteiriças com o Camboja, sobretudo em torno do templo de Preah Vihear, o que já resultou em confrontos militares na fronteira que mataram dezenas de pessoas e deslocaram milhares de civis. Em julho de 2025 foi alcançado um acordo de cessar-fogo mediado pelo Primeiro Ministro da Malásia, o qual ocupa a presidência da ASEAN, e que teve Estados Unidos e China como observadores do processo (Longmeng, 2025). Apesar do conflito no sul da Tailândia e o conflito fronteiriço com o Camboja não estarem diretamente relacionados em suas causas ou atores, se cruzam no impacto sobre a segurança nacional tailandesa. Ambos acabam reforçando a centralidade do exército na política, a intensificação de um discurso nacionalista e revelam as dificuldades da Tailândia em equilibrar estabilidade interna e relações externas.

[Figura não reproduzida nesta versão. Fonte: BBC]

Referências

ABDULMANI, Lutfee. Conflict Resolution: A Case Study Of The Separatist Movement In The Southern Border Provinces Of Thailand. Qudus International Journal of Islamic Studies, Vol. 1, n. 1, 2013. Disponível em: https://scispace.com/pdf/conflict-resolution-a-case-study-of-the-separatist-movement-2jk7dsm8ww.pdf. Acesso em: 13 ago. 2025.

BUTLER, Gavin; DRURY, Flora. Why are Thailand and Cambodia fighting at the border? BBC, 2025. Disponível em: https://www.bbc.com/news/articles/cdjxje2pje1o. Acesso em: 24 ago. 2025.

HORIBA, Akiko. Overview and Context of the Thailand’s Deep South Conflict. Sasakawa Peace Foundation, 2014. Disponível em: https://www.spf.org/apbi/news_en/t_140123.html. Acesso em 13 ago. 2025.

HUMAN Rights Watch. Thailand: Insurgents Bomb District Office in Deep South. Human Rights Watch, 2025. Disponível em: https://www.hrw.org/news/2025/03/10/thailand-insurgents-bomb-district-office-deep-south?utm_source=chatgpt.com. Acesso em 15 ago. 2025.

INTERNATIONAL Crisis Group. Southern Thailand’s Peace Dialogue: Giving Substance to Form. International Crisis Group, 2020. Disponível em: https://www.crisisgroup.org/asia/south-east-asia/thailand/304-southern-thailands-peace-dialogue-giving-substance-form?utm_source=chatgpt.com. Acesso em 13 ago. 2025.

ISMAIL, Nurrisha. Locked in Unrest: Southern Thailand’s Insurgency 20 Years On. The Diplomat, 2024. Disponível em: https://thediplomat.com/2024/11/locked-in-unrest-southern-thailands-insurgency-20-years-on/?utm_source=chatgpt.com. Acesso em: 14 ago. 2025.

LONGMENG, Rim. Thailand-Cambodia Ceasefire: A New Path to Peace or Prolonged Conflict? Fair Observer, 2025. Disponível em: https://www.fairobserver.com/history/thailand-cambodia-ceasefire-a-new-path-to-peace-or-prolonged-conflict. Acesso em 25 ago. 2025.

MISHRA, Rahul. What’s Behind the Growing Number of Attacks in Southern Thailand? Centre For ASEAN Regionalism Universiti Malaya (CARUM), 2023. Disponível em: https://aei.um.edu.my/whats-behind-the-growing-number-of-attacks-in-southern-thailand#. Acesso em 14 ago. 2025

NUMNODA, Thamsook. Pibulsongkram’s Thai Nation-Building Programme during the Japanese Military Presence, 1941–1945. In**. Journal of Southeast Asian Studies**, v. 9, n. 2, p. 234 – 247, 2011. Disponível em: https://www.cambridge.org/core/journals/journal-of-southeast-asian-studies/article/abs/pibulsongkrams-thai-nationbuilding-programme-during-the-japanese-military-presence-19411945/0B8616A5DEFAAC62F2187D1DC42D377E. Acesso em: 16 ago. 2025.

PATHAN, Don. Conflict Management And Resolution In Asia: The Role Of Civil Societies In Thailand’s Deep South. The Asia Foundation, n. 18, 2012. Disponível em: https://peaceresourcecollaborative.org/wp-content/uploads/2020/01/Don-Pathan-OP18_Confict-Deep-South-Thailand.pdf. Acesso em 14 ago. 2025.

SOUTH China Morning Post. Muslim insurgent group in southern Thailand says it has opened a dialogue with the government. SCMP, 2019. Disponível em: https://www.scmp.com/news/asia/southeast-asia/article/3023237/muslim-insurgent-group-thailand-says-it-has-opened. Acesso em: 24 ago. 2025.

TIMBERMAN, David. Violent Extremism And Insurgency In Southern Thailand: A Risk Assessment. United States Agency for International Development, 2013. Disponível em: https://www.msiworldwide.com/wp-content/uploads/2023/09/Violent-Extremism-and-Insurgency-Southern-Thailand.pdf. Acesso em: 13 ago. 2025.

UPPSALA Conflict Data Program. Country – Thailand. UCDP, 2025. Disponível em: https://ucdp.uu.se/conflict/11345. Acesso em 2 jul. 2025.

VATIKIOTIS, Michael. Southeast Asia’s Internal Conflicts: Regional Mediation Tools In. CSCAP Regional Security Outlook 2009-2010, p. 16-21, 2009. Disponível em: https://www.jstor.org/stable/resrep22256.5?seq=1. Acesso em: 15 ago. 2025.

Encontrou um erro neste conteúdo?
Avise a equipe do NPSeD para corrigirmos rapidamente.

Reportar erro →

Receba nossas publicações

Novidades do NPSeD direto no seu e-mail.

Parceiros & Redes Institucionais
PPGRI-UFSC GESED GEPPIC ABED-Defesa ABRI ISA IPSA LASA

© 2026 NPSeD · Universidade Federal de Santa Catarina · Todos os direitos reservados

Acessibilidade